Conjuntura ameniza discursos radicais de esquerda

Por décadas os países do Terceiro Mundo foram terreno fértil para as idéias de movimentos revolucionários de esquerda. Quase sempre submetida a truculentas ditaduras de direita, parte significativa da população dessas nações acreditava que as teses do socialismo real seriam a redenção e a solução definitiva para sua pobreza crônica.Na maioria dos casos, a esperança se converteu em decepção, menos pelo que os conservadores costumam qualificar de vício de origem das idéias marxistas e mais pela realidade das regras econômicas internacionais que se impuseram nas últimas décadas."Voltar-se contra as rígidas normas do modelo que se impôs internacionalmente é remar contra a maré", disse ao Estado Rodrigo Irivarren, professor de Ciências Políticas da Universidade Católica de Lima, no Peru. "Um dos exemplos mais acabados disso foi Alan García (presidente peruano de 1985 a 1990), que tentou se insurgir contra essas regras com uma política de ruptura com os organismos internacionais de crédito e com a estatização de instituições financeiras. García teve de recuar em suas intenções, mas mergulhou o Peru numa crise de confiança tão profunda que arruinou completamente sua economia. Acredito que, depois dele, o pragmatismo se impôs nos movimentos de esquerda que lutam para chegar ao poder. E, quando chegam, a caminhada na direção do centro político é inevitável."Enquanto a União Soviética, via Cuba, promovia revoluções armadas pela América Latina, o Chile viveu sua experiência socialista pelo caminho democrático. Salvador Allende foi eleito em 1970 com 34% dos votos. Nacionalizou empresas de mineração americanas e intensificou a reforma agrária. Em plena guerra fria, a experiência acabou de maneira trágica, com o suicídio de Allende e o golpe desfechado por Augusto Pinochet, que, com a complacência de Washington, implementou o regime de terror no país a partir de 1973. O processo fraturou a sociedade chilena, hoje profundamente dividida entre simpatizantes da esquerda ou da direita.Desde 2000, o país tem outro presidente socialista. Ricardo Lagos pertence ao mesmo partido de Allende, mas sua administração nada tem de radical. Lagos chegou ao governo com o imprescindível apoio da coalizão conhecida como Concertación - que reúne também democrata-cristãos e social-democratas e está no poder no Chile desde o fim da ditadura Pinochet, em 1989. O país, muito ao contrário do que ocorria na era Allende, é considerado pelos organismos de crédito internacionais como exemplo a ser seguido por seus vizinhos.ArgentinaOutro dirigente de origem esquerdista que optou por romper com a ortodoxia das doutrinas partidárias foi o argentino Carlos Menem. Nos dez anos de seu governo, sob os protestos dos sindicatos peronistas, Menem privatizou do sistema energético à estatal de petróleo. Na liderança de uma administração ferrenhamente alinhada com Washington, conteve as turbulências políticas indultando militares responsáveis por abusos de direitos humanos durante a ditadura que se estendeu de 1976 a 1983.O pragmatismo político que une forças conservadoras às revolucionárias ficou ainda mais evidente no processo eleitoral boliviano de 1989. Jaime Paz Zamora, candidato do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) - grupo defensor dos mais radicais princípios marxistas-lenistas - ficou em terceiro lugar na votação direta e, na fase indireta da eleição do país, juntou-se ao ex-ditador boliviano Hugo Bánzer para obter os votos necessários no Congresso para chegar à Presidência da República."Em política, há regras que valem tanto para os países ricos quanto para os pobres", explica Raúl Piñero, analista do jornal boliviano Presencia. "Se não houver um grau mínimo de conciliação de interesses, não haverá grau nenhum de governabilidade."É precisamente essa falta de conciliação que tem transformado num pesadelo o governo venezuelano de Hugo Chávez, que se notabilizou por desafiar interesses poderosos dentro e fora de seu país. Chávez, que como tenente-coronel do corpo de pára-quedistas do Exército liderou em 1992 uma tentativa de golpe contra o presidente social-democrata Carlos Andrés Pérez, enfrenta hoje a oposição de quase todas as instituições do país por insistir na sua estatizante "revolução bolivariana". Enquanto tinha o apoio, pelo menos, de partidos políticos e organizações menos conservadoras, pôde tocar seu projeto bolivariano, redigindo uma nova Constituição e elegendo-se novamente - sob a vigência da nova Carta - com certa tranqüilidade.Chávez é amigo de Fidel Castro e, pouco depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, empreendeu um polêmico giro por Líbia, Iraque e Irã. E criticou Washington pelos ataques contra o Afeganistão. Não bastasse isso, tentou aprovar um polêmico pacote de leis que alterava princípios sobre a propriedade da terra e ampliava a intervenção do Estado em atividades como a extração de petróleo e a pesca. Chegou a ser deposto por menos de dois dias no golpe militar de abril e ainda hoje enfrenta a rebelião de um grupo de oficiais que exige sua renúncia.AmenoDo México à Terra do Fogo, partidos esquerdistas amenizaram o discurso que predominava desde que Fidel desceu a Serra Maestra com seus guerrilheiros para marchar em Havana.Em Angola e Moçambique, países africanos nos quais a luta pela independência de Portugal foi seguida da instalação de regimes esquerdistas e guerras civis alimentadas pela guerra fria, o discurso marxista foi totalmente abandonado. O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos, e a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), de Samora Machel e Joaquim Alberto Chissano, renunciaram aos velhos ícones comunistas na carona da democratização dos países do Leste Europeu.Apesar dos avanços na direção da pacificação, o conflito com a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), direitista, ainda é causa de instabilidade no país - rico em petróleo, diamante e outros minérios. Em Moçambique, por outro lado, a infra-estrutura já está quase totalmente reconstruída e os investimentos começam a chegar em ritmo nunca visto pelos moçambicanos.

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