Conheça o médico que cuida de Covas

Além do mesmo cenário - o Incor, um dos maiores centros de excelência médica do País -, e da mesma atenção que atraem em todo o Brasil, os episódios das doenças de Tancredo Neves e Mário Covas têm apenas uma coisa em comum. Chama-se David Uip.Esse infectologista de 48 anos tornou-se conhecido do público nos últimos meses por ser o médico particular e amigo pessoal do governador. Ele se tornou o porta-voz da equipe médica que o trata. Mais do que explicar para a imprensa as questões relacionadas à doença e ao tratamento, Uip tem um papel-chave entre os médicos responsáveis pela saúde do governador. Cabe principalmente a ele explicar a Covas o diagnóstico dos exames, os tratamentos disponíveis e os prognósticos. Ele também é encarregado da tarefa de convencer Covas a seguir as orientações médicas, por mais contrariado que o governador possa ficar com as medidas. Para a tarefa, Uip revisou uma extensa lista de livros e trabalhos científicos sobre câncer na bexiga, na meninge e sobre a imunoterapia. Para conversar com Covas sobre a doença, Uip tem de se preparar como se estivesse pronto para um vestibular. "Não adianta ir discutir com ele sem estar com bons argumentos; é perda de tempo. Tem de saber tudo sobre o caso", diz. "Respeito muito a especialidade de cada médico. Eu nunca falo nada sobre a saúde do Covas sem estar devidamente informado pelos outros médicos da equipe." Uip tem um papel misto de médico de família e clínico geral, pois além de cuidar de Covas, também trata de outras pessoas da família do governador, como os netos. "O infectologista tem de ter formação em clínica médica muito forte, pois é uma área muito ampla. Ele precisa ter noções sobre cardiologia, terapia intensiva, nefrologia."Ele conheceu Mário Covas em 1987, quando o governador foi internado no Instituto do Coração (Incor) com problema cardíaco. "Depois disso, durante os últimos anos, o Covas teve problemas infecciosos, e por eu ter essa especialidade, nos aproximamos", contou o médico. "Nos tornamos amigos pela convivência e por uma porção de coisas que nos aproximam. Ele torce para o Santos, eu também; ele é fanático por esportes, eu também. Minha mulher trabalha com a mulher dele no Fundo Social do governo do Estado", contou. A relação entre ambos é bastante próxima e às vezes as famílias se reúnem para jantar.Uip é pai de duas filhas, de 21 e 15 anos, e de um garoto de 10 anos. Atualmente, ele é presidente da subcomissão de infecção hospitalar do Incor, tem uma clínica particular e é também diretor da Casa da Aids, instituição ligada ao Hospital das Clínicas de São Paulo que atende a pacientes carentes. Ele se formou na Faculdade de Medicina do ABC e fez três anos de residência na Universidade de São Paulo (USP), onde também concluiu seu mestrado, seu doutorado e livre docência. A vida do médico mudou bastante depois da recidiva do tumor de Covas, no final do ano passado. Ele atende a uma média de 50 ligações de jornalistas por dia em seu celular. No dia em que Covas falou frases desconexas em um evento, na segunda semana de janeiro, Uip estava numa sala de operação, acompanhando a cirurgia de seu filho, que tinha rompido o tendão do pé. O garoto pediu que ele estivesse presente na hora da operação. "Uma repórter me ligou contando o que tinha acontecido, querendo saber o estado de saúde do Covas, e eu atendi a ligação dentro do centro cirúrgico", lembrou. Em sua rotina, na clínica, tem recebido todo tipo de sugestões para ajudar Covas, que vão de tratamentos alternativos, influenciados por crenças místicas e religiosas, até produtos farmacêuticos. Uip pouco tem ido à Casa da Aids e também não participa mais de congressos internacionais. Suas relações com a família foram pouco afetadas. "É claro que eu não me sinto seguro para, por exemplo, sair de São Paulo. No máximo, vou até o Guarujá, mas minha família compreende o momento, sabem que estou fazendo o que é certo", disse. Com TancredoEsta é a segunda vez em que Uip se envolve em um caso médico de uma grande personalidade do mundo político - a diferença é que, desta vez, ele está bem no centro do processo. Em 1985, quando o presidente Tancredo Neves foi transferido do Hospital de Base de Brasília para o Instituto do Coração (Incor) em São Paulo, ele era apenas um dos integrantes da equipe médica chefiada pelo professor-doutor - como se frisava sempre, a cada momento - José Aristodemo Pinotti.Era uma situação completamente diferente, oposta à de hoje. O real estado de saúde do presidente Tancredo, o primeiro civil a ocupar o cargo depois do golpe militar de 1964, era um mistério. O porta-voz da Presidência, o jornalista Antônio Brito (mais tarde governador do Rio Grande do Sul), apresentava, cuidadosamente, ao vivo, diante de todas as redes de TV e toda a imprensa brasileira, boletins médicos que algumas vezes estavam extremamente distantes da realidade. Havia um grande assédio em torno dos médicos por parte de dezenas e dezenas de repórteres. "As pessoas não entendiam que o presidente chegou muito mal de Brasília. No dia em que o Tancredo morreu tivemos de sair com escolta da polícia, porque as pessoas não entendiam que a responsabilidade não era dos médicos", lembrou. "Meu carro foi todo amassado, foi um caos. Minha família teve de mudar de casa, sofríamos ameaça, foi uma coisa muito dramática." No caso de Mário Covas, a estratégia adotada pelo próprio governador, desde o início, ainda em 1998, foi dar transparência aos fatos, nomeando uma pessoa da equipe para explicar para a imprensa a doença e o tratamento a que Covas está se submetendo. Uip foi o escolhido. "Inicialmente, a gente ia fazer a comunicação por boletins médicos, mas essa informação de boletim não era suficiente para os jornalistas. Começamos a ver outros médicos falando inadequadamente sobre o assunto e preferimos nós mesmo explicar tudo", afirmou. A experiência de Uip com a aids de alguma maneira o ajudou a tratar agora do governador paulista. Desde 1981, quando foram registrados os primeiros casos da doença no Brasil, Uip se envolveu diretamente com o assunto. "Aprendi, assim, a lidar com doença grave. Essa experiência me ajuda muito a tratar de casos como o do Covas", diz. Quando questionado se é mais fácil fazer um paciente de aids aderir ao tratamento ou convencer Covas a seguir as recomendações médicas, ele diz que nunca teve problemas com o governador. "Quando a gente achou que era melhor recomendar a ele o afastamento, fizemos isso e ele atendeu. Não existe essa história de que ele desobedece as ordens médicas", diz.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.