Ernesto Rodrigues / Estadão
Ernesto Rodrigues / Estadão

Congresso vive apagão de partidos ‘verdes’

Movimento vai de encontro ao aumento da demanda pela preservação ambiental

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 22h00

BRASÍLIA - A retomada do debate ambiental no País e no exterior contrasta com um apagão dos “partidos verdes” no Congresso Nacional. No momento em que surgem novos atores nas redes sociais e na economia em defesa da pauta da sustentabilidade, a representatividade de ambientalistas na Câmara dos Deputados e no Senado enfrenta um declínio. Parlamentares ligados ao tema tentam manter a relevância apostando na transversalidade da discussão. 

A morte do ativista e ex-deputado Alfredo Sirkis, de 69 anos, em julho, num acidente de carro no Rio, ilustrou de forma trágica o ocaso vivido pela bandeira do meio ambiente no Legislativo. Um dos fundadores do PV nos anos 1980, Sirkis teve destaque no movimento focado na preservação, que teve seu ápice no meio político na eleições presidenciais de 2010 e 2014. Naquele período, Marina Silva, ex-petista ligada ao grupo do líder seringueiro Chico Mendes, ficou em terceiro lugar, com 19 milhões e 22 milhões de votos, respectivamente. Na última disputa, porém, ela amargou a oitava posição, obtendo um milhão de votos. A perda de capital de Marina refletiu na Rede Sustentabilidade, legenda criada por ela após campanhas presidenciais pelo PV e pelo PSB. Em 2018, a Rede elegeu somente uma deputada, Joênia Wapichana (RR), a única indígena do Congresso. 

Integrante histórico do movimento verde, o ex-deputado e jornalista Fernando Gabeira avalia que nem sempre a representação política corresponde de forma “mecânica” à importância crescente do tema ambiental. “É um problema, e os candidatos precisam examinar por que a pauta não consegue ser traduzida de forma satisfatória.” Ele vê como saída a fusão entre as legendas. 

A unificação, discutida há anos nos bastidores, nunca avançou por divergências entre os líderes partidários. “O ideal seria uma união e o lançamento de um programa para o País. Mas não pode ser voltado apenas para a ecologia em si”, avalia. “Reconheço que houve uma lacuna na nossa trajetória ao longo dos 30 anos, que foi o saneamento básico, que só agora foi objeto de um marco regulatório. Trabalhamos muito a legislação ambiental.” 

A bancada verde no Congresso também reuniu, no passado, nomes historicamente ligados a movimentos sociais e ONGs, como Fábio Feldmann (fundador da SOS Mata Atlântica, Instituto GEA e Fundação Onda Azul), Sarney Filho (ex-ministro e atual secretário de Meio Ambiente do Distrito Federal) e Márcio Macedo (biólogo e vice-presidente nacional do PT).

Hoje, a bancada do PV tem como seu nome mais orgânico o deputado Célio Studart (CE), que milita pelos direitos de animais. Entre os que têm trajetória próxima dos ambientalistas destacam-se o ex-prefeito de Bauru (SP) Rodrigo Agostinho (PSB), coordenador da Frente Ambientalista e presidente da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, e Nilto Tatto (PT-SP), fundador do Instituto Socioambiental.

Após pressão de investidores estrangeiros e de executivos reunidos no Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), formou um grupo de trabalho para selecionar e negociar projetos legislativos de impacto ambiental. O grupo reúne nomes ligados a ambientalistas e ao agronegócio. A ideia é buscar consenso entre siglas de esquerda, centro e direita. No entendimento desses deputados, reforçar o antagonismo barra o avanço da proteção ambiental. 

Nomes do DEM de São Paulo foram escolhidos por Maia para a relatoria do Marco do Saneamento Básico (Geninho Zuliani) e do Licenciamento Ambiental (Kim Kataguiri), que ainda não foram votados. “Muito embora os partidos originários da causa ecológica tenham ficado menores na representação legislativa, há uma clara percepção suprapartidária de necessidade sustentável por parte dos parlamentares da atual legislatura. Até mesmo por parte da bancada ligada ao agronegócio”, diz Agostinho, que integra o grupo de trabalho.

Ministro

Políticos ligados ao setor dizem que Bolsonaro tratou o meio ambiente com desdém, escolheu um ministro (Ricardo Salles) sem interlocução com o setor e não desenhou um programa de governo para a área. Além disso, trabalha para desmontar a legislação protetiva. Eles ressaltam que o governo reabilitou um conceito superado no exterior de que a ecologia é uma pauta “de esquerda”.

Registrado há apenas cinco anos na Justiça Eleitoral e ligado ao empresariado e ao sistema financeiro, o Novo defende ações ligadas ao mercado para solucionar problemas ambientais, como saneamento e recuperação das águas, redução do desmatamento ilegal, redução dos lixões, fim de subsídios à energia não-renovável (gasolina e diesel) e um debate racional sobre defensivos agrícolas. No ano passado, o partido expulsou Salles por adotar condutas divergentes das que o partido prega, “desdenhando de dados científicos”, mas não aplicou qualquer punição por sua gestão como ministro. 

“Essa geração do agro e do mercado financeiro acordou e viu a importância que o mundo dá para a maior floresta tropical. É menos o parlamento e mais a sociedade que está se mobilizando”, afirmou o ex-deputado Ricardo Trípoli (PSDB), ex-secretário de Meio Ambiente de São Paulo e atual secretário executivo da prefeitura da capital paulista.

Líder do PV, o deputado de primeiro mandato Enrico Misasi (SP) afirma que a retórica de Bolsonaro permissiva e favorável a demandas de produtores rurais e garimpeiros pode ter conquistado votos, mas prejudicou o governo. “A pauta de proteção ambiental se tornou universal.”

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