Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Congresso virou 'Geni' na balbúrdia de Bolsonaro

Relacionamento do Congresso com o Palácio do Planalto vai de mal a pior.

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2019 | 10h58

Caro leitor,

O relacionamento do Congresso com o Palácio do Planalto vai de mal a pior. Acostumado às negociações de bastidores, o ex-senador Romero Jucá, presidente do MDB, costuma dizer que, se na lei da física toda ação corresponde a uma reação, na política cada gesto desperta “incontáveis reações” em sentido contrário.

Agora, por exemplo, integrantes de partidos do Centrão estão convencidos de que os movimentos do presidente Jair Bolsonaro são para transformar o Congresso na “Geni” desta balbúrdia e prometem dificultar ainda mais a vida do governo.  Nesta sexta-feira, 17, Bolsonaro chegou a compartilhar em grupos de WhatsApp um texto de “autor desconhecido”, que vê um Brasil “ingovernável” fora de conchavos e faz fortes críticas às “corporações”, mas com uma lupa mais grossa sobre o Legislativo.

Pedras não faltam nesse caminho, de um lado e de outro, mas o tamanho dos protestos de rua contra o corte de verbas da Educação, nesta quarta, 15, não só surpreendeu como preocupou auxiliares de Bolsonaro, como você pode ler aqui. Tanto na sede do governo como no Congresso vieram à tona os atos de junho de 2013, nunca bem compreendidos, e as manifestações que culminaram com o impeachment de Dilma Rousseff, três anos depois.

O problema é que, ao usar a estratégia do confronto para governar, o próprio Bolsonaro acirrou ainda mais os ânimos, diretamente dos Estados Unidos. “Querem que eu me adeque pela tal governabilidade? Não vou ceder a pressão nenhuma. É isso que querem? Um presidente vaselina para agradar a todo mundo?”, perguntou ele a jornalistas, em Dallas, avisando que não vestirá esse figurino. “Eu não vou sucumbir.”

Vinte e quatro horas antes, também nos EUA,  Bolsonaro já havia chamado os manifestantes que pediram mais recursos para as universidades de “idiotas úteis”, “imbecis” e “massa de manobra”. Em sabatina no plenário da Câmara, naquela mesma quarta-feira, 15, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, defendeu o chefe. “Querem derrubar esse governo me mostrando como um cara idiota”, disse Weintraub para uma plateia de deputados. Irônico, ele prosseguiu: “E aí, sou tão idiota assim?”

De balbúrdia em balbúrdia, até hoje a Medida Provisória que diminui o número de ministérios de 29 para 22 não foi votada. O texto perde a validade em 3 de junho e, caso não passe pelo crivo do Congresso, a atual configuração cai no limbo e o Planalto pode ser obrigado a recriar até dez pastas, como mostrou esta reportagem.

Para aprovar a MP da reforma administrativa e evitar o caos na Esplanada, Bolsonaro deu meia volta no discurso da “velha política” e  aceitou até mesmo dividir o Ministério do Desenvolvimento Regional em dois. A estratégia para angariar votos prevê a recriação das pastas de Cidades e Integração Nacional.

Na prática, trata-se de um “combo” acertado para a formação da base de apoio ao governo. Ao que tudo indica, porém, tudo voltou à estaca zero depois que a comissão formada por deputados e senadores decidiu tirar o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) das mãos do ministro da Justiça, Sérgio Moro. Nesse capítulo, o escritor Olavo de Carvalho e o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) reagiram, revezando os  ataques aos militares com a artilharia na direção do Congresso.

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, pediu, então, para o Senado apadrinhar a permanência do técnico Gustavo Canuto, hoje ministro do Desenvolvimento Regional, na pasta da Integração, a ser ressuscitada. Com tanto vaivém, um deputado do Centrão deu o diagnóstico na lata: “O Planalto não precisa de um articulador político, mas, sim, de um psiquiatra.”

Para completar o quadro, antes de viajar para os EUA, Bolsonaro disse ter assumido compromisso com Moro de indicá-lo para uma vaga no Supremo Tribunal Federal, “porque ele abriu mão de 22 anos de magistratura” para entrar no governo.

A confidência deixou Moro na berlinda e fez com que a desconfiança em relação às promessas de Bolsonaro aumentasse. “Quer dizer que toma lá-dá cá com ex-juiz da Lava Jato pode e com político não pode?”, provocou o mesmo deputado do Centrão.  Após o mal-estar, Bolsonaro voltou atrás e negou que tenha feito acordo prévio com o ministro. Veja aqui.

Em conversas reservadas, parlamentares observam que, para se salvar, o governo joga a culpa por tudo de ruim que acontece no País em cima do Congresso. É aí que entra a maldição de Geni.

Nesse cenário, não só a pedra, mas o tsunami citado por Bolsonaro devem ter mais de uma temporada. “O que está por vir pode derrubar o capitão”, resumiu Carlos nesta quarta-feira, 15, em suas redes sociais, sem dizer do que se tratava.

Comenta-se no Planalto que a mais devastadora destas séries atinge o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), que teve o sigilo bancário e fiscal quebrado pela Justiça do Rio, após pedido do Ministério Público. Para o presidente, seu filho “zero um” é alvo de “esculacho”. “Querem me atingir? Venham para cima de mim”, desafiou ele, como você pode ver aqui.

A investigação é relativa à época em que Flávio era deputado estadual. Tudo porque o  Coaf – prestes a sair do controle de Moro e ir para o Ministério da Economia ­– identificou movimentações atípicas nas contas bancárias de Flávio e de seu ex-assessor Fabrício Queiroz. “Talvez tenha sido meu erro confiar demais nele”, admitiu o senador, em entrevista exclusiva ao Estado, como você pode ler aqui

Enquanto o tsunami não vem, o ministro da Economia, Paulo Guedes, faz de tudo para convencer o Legislativo a aprovar a reforma da Previdência, sob o argumento de que, sem mudanças na aposentadoria, continuaremos com um “Pibinho”. Na terça-feira,14, em audiência na Comissão Mista de Orçamento, o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro disse, com todas as letras, que o País está “no fundo do poço”, “à beira de um abismo fiscal”. Para o colunista Celso Ming, talvez o ministro ainda tenha sido otimista.

Guedes afirmou que o País só conseguirá mudar essa rota com a aprovação da reforma da Previdência. “É claro que há paixão, mas a eleição acabou. Eu acredito na maturidade da classe política. O círculo virtuoso está nas mãos do Congresso”, previu o dono da chave do cofre.

O risco de empurrar a bola para o Congresso, nessa altura do campeonato, é o efeito bumerangue, que pode agitar a “massa de manobra”. Mas Bolsonaro não parece acreditar muito na lei de Newton.

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