Markus Schreiber/AP
Markus Schreiber/AP

Congresso vai testar força de Bolsonaro

Com sua articulação política ainda capenga e tendo a sombra dos problemas de Flávio Bolsonaro pairando sobre o governo, presidente precisa dissipar essas nuvens do horizonte se quiser aprovar, por exemplo, a Reforma da Previdência

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2019 | 05h00

Caro leitor,

No capítulo anterior, mostramos que a chamada “velha política” já batia na porta de Jair Bolsonaro. Eleito com um discurso que prometia rompimento com o clientelismo político, com o toma lá, dá cá, e com os privilégios para os poderosos, o presidente mal começou seu mandato e deu sinais de que a realidade poderá ser diferente do discurso de campanha. Mas essa situação poderá ficar ainda mais complicada. A cada dia, surgem desdobramentos sobre o caso Queiroz, que envolve Flávio Bolsonaro, filho do presidente, com as movimentações financeiras atípicas descobertas pelo Coaf nas contas de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador eleito. E, dentro do Congresso, a avaliação é que Bolsonaro terá dificuldade para se impor aos parlamentares precisando administrar o desgaste político causado por uma pessoa tão próxima. Nesta reportagem, você fica sabendo tudo o que falta ser esclarecido no Caso Queiroz. 

O governo quer – e precisa – aprovar a proposta de reforma da Previdência para começar a ajustar suas contas. É chover no molhado dizer que existe imensa expectativa por essa votação, já que ela sinalizará a real disposição do Brasil em arrumar a casa. Ou seja, não há um parlamentar no Congresso que não tenha percebido o quanto essa votação é crucial para Bolsonaro. E isso significa que se trata de uma discussão com alto potencial de barganha. É aí que os parlamentares vão testar até onde o presidente estará disposto a ir para aprovar a proposta. Nesse caso, leia-se: o quanto está disposto a oferecer para aprovar um projeto polêmico, que precisa de alto quórum de votação (três quintos dos votos em dois turnos na Câmara e no Senado). Com sua articulação política ainda capenga e tendo a sombra dos problemas de Flávio Bolsonaro pairando sobre o governo, o presidente precisará mostrar uma força que talvez já tenha pedido para impedir que a discussão naufrague. Investidores internacionais, inclusive, perceberam que o Congresso poderá ser um obstáculo difícil de transpor, como você pode ver nessa reportagem

E ninguém duvida da importância que a reforma da Previdência tem para o Brasil neste momento. Nesta entrevista ao Estado, o presidente do Conselho de Administração do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, cobrou senso de urgência na votação. Este editorial do Estado também fala sobre a necessidade da votação.

Nesta semana, Bolsonaro teve uma oportunidade de ouro para demonstrar prestígio político e mandar um recado de sua força para o Congresso. Mas não conseguiu aproveitar a chance. Escalado para abrir o prestigiado Fórum Econômico Mundial, em Davos, fez um discurso superficial, de apenas seis minutos, aonde prometeu abertura comercial, mas nem sequer explicitou a necessidade de aprovar a reforma. Em geral, frustrou as expectativas de quem esperava informações e disposição clara sobre o assunto. Você pode ver aqui como foi a fala do presidente e aqui pode ler a análise que Vera Magalhães fez para o BR18 sobre a fala do presidente. 

A frustração só foi amenizada pelo tom firme adotado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, deixando claro que não há chance de o governo recuar na discussão previdenciária. Você pode ler o que o ministro falou nesse texto

Só que não vai adiantar nada essa disposição do governo se o Congresso se tornar um campo minado para essa ação. A eleição para o comando da Câmara e do Senado entra na sua reta final e uma intervenção do Planalto na disputa causou mal-estar entre os parlamentares. A líder do MDB, senadora Simone Tebet (MS), acusou o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, de tentar interferir na votação para a Presidência do Senado. Segundo Simone, que é pré-candidata, Onyx estaria fazendo campanha a favor do senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), seu companheiro de partido. A manobra seria, alegadamente, para impedir que Renan Calheiros (MDB-AL) fosse o vitorioso. Mas o movimento pegou mal e fez com que Simone lembrasse que o Planalto deveria evitar se meter nesse processo sob pena de por em risco a votação da reforma. “Não pode esquecer que tem uma reforma da Previdência para votar. Não se vota uma reforma da Previdência já de pronto sem ter a maior bancada apoiando”, disse se referindo ao tamanho da bancada do MDB. Você pode ver tudo o que Simone falou aqui.

Se quiser avançar, o governo precisa dissipar essas nuvens do seu horizonte. Um bom gesto nesse sentido será se Bolsonaro se comportar com distanciamento em relação aos problemas do seu filho como fez inicialmente em Davos

Mas, sobretudo, Bolsonaro e seus principais auxiliadores precisam estar muito atentos com os humores e movimentos do Congresso. Apesar da renovação de boa parte da Câmara e do Senado, não faltam parlamentares com interesses pouco republicanos e que sabem estar diante da oportunidade de testar até onde vai a disposição de Jair Bolsonaro para fazer jogo duro com o velho toma lá, dá cá. Não há ingênuos no Congresso. É bom que o presidente não se esqueça disso.

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