Congresso no Japão discute combate à exploração sexual

O Auditório Nacional de Convenções de Yokohama estava totalmente ocupado às 9 horas: 3 mil pessoas das mais diversas partes do mundo reunidas para a cerimônia de abertura do Segundo Congresso Mundial contra a Exploração Sexual Comercial de Crianças. As falas da mesa foram breves, como sugere o protocolo para intervenções institucionais desse formato. Entretanto, a contundência dos discursos ? a cargo da ministra de Relações Exteriores do Japão, Makiko Tanaka, da princesa japonesa Takamado e da rainha brasileira Silvia, da Suécia ? fugiu do perfil habitual.Essa contundência é, na verdade, o tom dominante do evento. Há cinco anos, em Estocolmo (Suécia), o Primeiro Congresso Mundial sobre o tema causava impacto em boa parte dos governos, com a informação de que a exploração sexual de crianças e adolescentes não só era um problema comum a todas as nações ? independentemente do grau de desenvolvimento ou do background cultural ? mas também atingia grandes dimensões.Hoje, o sentimento dos atores envolvidos no enfrentamento da questão é de que esgotou o tempo para a tomada de consciência por parte de governantes e cidadãos. Espera-se do encontro de Yokohama aprofundamento dos compromissos e maior eficácia nas ações. Essa demanda ficou ainda mais evidente nas falas da segunda mesa da manhã de hoje, a cargo dos representantes das entidades organizadoras do evento.Se a ministra da Justiça japonesa, Mayumi Moriyama, fez questão de assumir claramente a gravidade da situação em seu país, Carol Bellamy, diretora executiva do Unicef, seguiu no mesmo tom, imputando diretamente aos governos maior parcela da responsabilidade pelo ritmo lento com que implementam ações de enfrentamento do problema. Coube à representante da organização internacional Ecpat, Josephine de Linde, reforçar a idéia de que embora a Exploração Sexual Comercial de Crianças cause tantos estragos quanto o terrorismo, a maioria das pessoas permanece cega frente a essa ?destruição?.3 mil por diaOs números apresentados na abertura do evento são realmente chocantes: 1 milhão de crianças e adolescentes abusados a cada ano. São 3 mil a cada dia. Ou 125 por hora. Beneficiando-se dessa situação, além dos clientes, está uma lucrativa rede de exploração.À força desses números somou-se o depoimento emocionado da índia canadense Cherry Kingsley. Representante do grupo de ONGs parceiras do evento, ela viveu na carne o drama da exploração sexual e decidiu lutar pelo resgate de outras crianças e adolescentes. Três adolescentes engajados no trabalho pela erradicação da exploração sexual de crianças encerraram a cerimônia da manhã, com conjunto de sugestões/exigências, dentre os quais se destacava a denúncia de que o envolvimento direto das polícias e de representantes governamentais nas rede de exploração é hoje um dos principais fatores de interferência no combate ao problema.Miséria e violência sexualO Brasil é presença importante no Congresso de Yokohama. O País está entre os poucos que conseguiram estruturar um Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, compromisso assumido oficialmente pela maioria das nações representadas em Estocolmo, em agosto de 1996. Melhor: o plano brasileiro é visto como modelo e inspiração para outros países latino-americanos e do restante do mundo. Isto porque foi construído de forma democrática, em consistente parceria entre Governo e sociedade civil.Uma das mentoras do plano, a socióloga e pesquisadora Marlene Vaz reconhece a maturidade do diálogo estabelecido entre o Departamento da Criança e do Adolescente do Ministério da Justiça, a Secretaria de Ação Social e as ONGs na questão da Exploração e do Abuso Sexual. E acredita que o Segundo Congresso Mundial tende a consolidar o leque brasileiro de ações, elaborado ao longo de três anos de intensos debates e finalmente aprovado em junho de 2000, em Natal.No entanto, este conjunto de fatores positivos está longe de deixar Marlene tranqüila quanto à capacidade brasileira de avançar substancialmente em relação ao quadro atual ? que, afirma, se agrava ano a ano.Pouco após ouvir o Plano brasileiro ser citado, na primeira plenária do Congresso, como referência internacional, Marlene denunciou: ?a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes é em nosso País primordialmente um sintoma do ciclo de pobreza que afeta grande parte da população. Nesse sentido, ações de prevenção à exploração, de combate aos exploradores e de apoio às vítimas, tendem a cair no vazio caso o governo não assuma frontalmente um programa eficaz de combate à miséria, o que vem até agora se recusando a fazer.

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