Confronto entre MST e seguranças deixa 2 mortos no Paraná

Briga ocorreu na fazenda Syngenta Seeds, ocupada neste domingo por integrantes do MST e da Via Campesina

Miguel Portela, do Estadão,

21 Outubro 2007 | 20h05

Um líder sem-terra e um segurança foram mortos a tiros durante um confronto neste domingo, 21, na fazenda experimental Syngenta Seeds, em Santa Tereza do Oeste, a 530 quilômetros de Curitiba. O confronto aconteceu durante tentativa dos seguranças da propriedade de retomarem o local, que havia sido invadido pela manhã por cerca de 200 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Via Campesina. De acordo com a Polícia Militar de Cascavel, outras oito pessoas ficaram feridas.   Valmir Motta de Oliveira, 32 anos, líder sem-terra, foi morto com dois tiros, um no abdômen e outro na perna. Valmir, que era conhecido por Keno, era uma das principais lideranças do MST no Oeste do Paraná e liderou a ocupação pela manhã na fazenda. O segurança morto, Fábio Ferreira, 25 anos, levou um tiro na cabeça. O confronto, de acordo com a Polícia Militar, aconteceu por volta das 13h30 em frente ao portão de entrada da fazenda.   Em depoimento à polícia, os seguranças contaram que foram contratados pelo Movimento dos Produtores Rurais (MPR), o mesmo que, há cerca de quatro meses, promoveu a desocupação em uma fazenda em Lindoeste, no Oeste do Paraná. O MPR é ligado a Sociedade Rural do Oeste, que reúne os principais ruralistas da região. O presidente da entidade, Alessandro Meneghel, negou que o MPR contratou os seguranças particulares. "Nós não temos nenhuma participação nesse episódio. A empresa de segurança fez o papel dela, que é proteger a propriedade", disse.   O líder ruralista prevê o acirramento nos conflitos agrários na região Oeste do Paraná, caso o governo do Estado não cumpra as ordens de reintegração de posse. "O governo precisa tomar um posição firme para evitar a guerra no campo", frisou Meneghel.   Confronto   "A gente estava na guarita fazendo a segurança do local, quando um Apolo e microônibus chegaram com os seguranças. Eles desceram e começaram a atirar contra nós", contou uma sem-terra que escapou da morte e não quis ser identificada. Segundo ela, o confronto durou pelo menos 30 minutos. As marcas de tiros estão em toda a guarita. "Foi um desespero geral porque se ouvia tiros sem parar. O Keno foi executado ao meu lado", conta a sem-terra.   Outro líder do MST na região, Celso Ribeiro Barbosa, escapou ileso do confronto. O carro dele ficou com várias marcas de bala. "Os segurança da empresa vieram aqui para matar os líderes do movimento. Eu não tenho dúvida de que eu e o companheiro Keno éramos os alvos dos seguranças", denunciou Barbosa. Ele culpou os ruralistas e a empresa pelo conflito deste domingo.   "Vamos ficar na aérea. Agora é questão de honra", disse Barbosa. Ele negou que os sem-terra estivessem armados. A Polícia Militar mantém um efetivo de aproximadamente 100 homens no local. "A orientação é aguardar na fazenda para evitar novo confronto entre os agentes de segurança e os sem-terra. Também vamos aguardar a ordem do governo do estado para fazer a reintegração da fazenda", afirmou o capitão do 6º Batalhão da Polícia Militar de Cascavel, José Luiz de Oliveira.   Segundo ele, quatro seguranças foram presos nas imediações da fazenda e encaminhados a Polícia Civil de Cascavel por participação no confronto.   Os feridos encaminhados aos hospitais de Cascavel, segundo o capitão Oliveira, também serão presos, assim que forem liberados, por participação nos homicídios. Ao todo são cinco sem-terra e três agentes feridos. A empresa NF é a responsável pela segurança da Syngenta.   Política antiviolência   Em nota oficial, a Syngenta lamentou "profundamente o incidente" e afirmou estar colaborando com as autoridades para apurar o que ocorrer na fazenda.   Além disso, a empresa reforçou que sua política global "determina que não se use força ou armas para proteger suas unidades".   Texto atualizado às 22h39

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