ALEXANDRE MOREIRA/BRAZIL PHOTO PRESS
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‘Confiança só será recuperada depois do ajuste'

Diplomata acredita que visita da presidente Dilma Rousseff aos EUA servirá para atrair atenção de investidores estrangeiros em áreas como a de infraestrutura

Entrevista com

Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Londres e Washington

Felipe Corazza, O Estado de S. Paulo

27 de junho de 2015 | 05h00

Ex-embaixador do Brasil nos governos FHC e Lula, Rubens Barbosa reforça nesta entrevista a importância da visita da presidente Dilma Rousseff como forma de “normalizar” as relações com os Estados Unidos. Comenta o incidente da espionagem ocorrido com a petista, em que afirma não haver “ninguém é santo aí”.

Estado - Essa visita é uma consolidação de um novo olhar econômico sobre a política externa ou é só um começo?

Não é uma mudança fundamental na política externa, não. A situação econômica interna do Brasil demandou algumas mudanças de ênfase. A primeira é a busca de investidores lá fora numa necessidade de arranjar fatos positivos aqui dentro. É uma questão de política interna também. E, sobretudo, dar uma perspectiva para o setor exportador, que está sofrendo muito. 

Estado - Qual é a importância política da visita?

A coisa mais importante dessa visita é normalizar a relação com os EUA, já que nos últimos três anos, em nível oficial, havia esse embaraço da NSA (agência de espionagem americana). Com a viagem, normaliza-se a relação. E acho que pode haver alguns resultados importantes. Essa questão da carne, por exemplo, se houver alguma decisão, ou sobre a questão do clima. Mas não acho que seja uma mudança nem de política externa, nem de política comercial, porque não há previsão de novos acordos ou qualquer outra coisa nessa área. Vai haver algo sobre convergência regulatória, que é representativo, mas é um primeiro passo, não uma coisa dramática.

Estado - Quando o ex-presidente Lula falava em novos acordos, quase sempre se referia à África e Ásia. O fato de a presidente não especificar isso representa algo?

É a cooperação sul-sul. Isso vai continuar. É normal, é política comercial. Mas a ênfase que eles estão dando agora é diferente e isso é positivo. Nós sempre brigamos por isso. Mas não sei se vai ter desdobramentos concretos. Por quê? Pela falta de competitividade dos produtos brasileiros, o alto custo Brasil, preço da energia, burocracia, taxação, tudo isso que a gente sabe que acrescente 35% sobre os custos de produção. A competitividade dos produtos brasileiros está muito defasada para concorrer, por exemplo, com produtos americanos. Com chineses, coreanos, mexicanos. É muito difícil. Acho que é um passo positivo em termos de mudança de um discurso velho, ultrapassado, de sul-sul, de África. 

Estado - Como o sr. enxerga a evolução da relação de confiança dos EUA diante de coisas como a Operação Lava Jato, impasses no Congreso etc.?

A confiança do investidor externo, não só o americano, é muito baixa. A China está fazendo o que está fazendo por outras razões, mas o investidor ocidental está numa posição de esperar para ver o que vai acontecer na crise política, na crise econômica, na crise de ética. O investimento externo produtivo aqui no Brasil está indo para o setor de serviços, não da produção para exportação. A confiança no exterior só vai ser recuperada quando o ajuste fiscal realmente produzir resultados. Agora, a condução desse ajuste fiscal está muito difícil. O Congresso toma medidas que vão contra o espírito do ajuste, que é reduzir a despesa e aumentar a receita, então, lá fora, acho que a visita da Dilma não vai mudar muito a percepção. Mesmo esse encontro que ela vai ter com os empresários, que é muito interessante para falar das oportunidades de investimento em infraestrutura. Todo mundo vai ficar interessado, mas eles vão esperar para ver como vai ser a regulação da abertura dessas concessões. 

Estado - Do ponto de vista político, novamente, como o sr. compara a relação bilateral no período em que o sr. serviu em Washington e hoje?

Mudou muito. Nós tínhamos uma política pró-ativa de estimular o comércio, as exportações. Quando saí de lá (março de 2014), tínhamos superávit na balança comercial com os EUA. A partir do segundo mandato do presidente Lula e do governo Dilma, o fator ideológico pesou muito. O antiamericanismo de certas áreas do governo, não de todas, mas de certas áreas, permeou a relação. Aí houve essa coisa do monitoramento e a própria presidente interferiu, como devia ter feito, mesmo, mas criou uma situação de anormalidade na relação. A relação hoje é muito diferente. Isso no campo oficial. No campo das instituições, as relações continuam muito ativas, houve um grande contato entre instituições, porque os interesses comuns são muito grandes. Mas o que diferencia o meu tempo até essa visita é a dificuldade em nível governamental para tratar de temas como energia, defesa, meio ambiente e outras áreas em que há uma grande perspectiva de cooperação. 

Estado - Essa questão da espionagem não foi novidade para o sr., que chegou a descrever os momentos em que desconfiou de grampos na embaixada...

Houve um problema desse quando eu estava lá. Desconfiei, não, uma empresa de lá comprovou. Essas coisas sempre ocorrem, ninguém é santo aí. O que não pode é você ser apanhado com a boca na botija, como aconteceu com a França na semana passada, com Brasil, Alemanha, criando embaraços. Mas ninguém é ingênuo de achar que isso não ocorria. 

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