Joshua Roberts/Reuters - 16/3/2019
Joshua Roberts/Reuters - 16/3/2019

Conferência conservadora vira ‘prévia’ de bolsonaristas para atos do 7 de Setembro

Versão brasileira da CPAC é dominada por palestrantes alinhados à chamada ala ideológica do governo

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 16h25
Atualizado 01 de setembro de 2021 | 19h33

Três dias antes das manifestações marcadas para 7 de setembro, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro estarão reunidos em Brasília na versão brasileira daquele que é considerado o maior evento conservador dos Estados Unidos. A Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), organizada no Brasil por um instituto que tem o deputado federal Eduardo Bolsonaro como presidente, deve ser dominada por palestrantes alinhados à chamada “ala ideológica” do governo – o evento ocorre nesta sexta, 3, e sábado, 4. 

Nas redes sociais, palestrantes estão mobilizados também na convocação para manifestações a favor do governo federal no Dia da Independência. Alguns reclamam das ações da Polícia Federal contra bolsonaristas que organizavam o ato do 7 de Setembro em Brasília e outras decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), como a prisão do ex-deputado Roberto Jefferson. As ações de busca e apreensão e a prisão, determinadas pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, ocorreram após alguns dos investigados defenderem a invasão do Congresso e do STF e a intervenção de militares. 

Para a conferência, estão confirmados desde os ex-ministros Ernesto Araújo e Ricardo Salles, que comandaram as pastas de Relações Exteriores e Meio Ambiente, até influenciadores evangélicos e policiais militares da reserva. Outra presença confirmada é a de Donald Trump Jr., filho mais velho do ex-presidente americano, como mostrou o Estadão

“Me parece que é apenas uma coincidência da conveniência de datas para se organizar em Brasília um evento desse porte em um feriado que de poucas semanas para cá, ganhou contornos mais políticos do que normalmente ocorre para a data”, disse a consultora em educação Ilona Bekskeházy, que também chefia a área de educação do Instituto Conservador-Liberal, sobre o evento e as manifestações. Ela fará uma apresentação no CPAC Brasil sobre políticas públicas consolidadas em países de alto desempenho no Programa Internacional de Avaliação de Alunos, o Pisa. Seu trabalho no instituto que coordena o evento, ela diz, é de “análise e comentários técnicos simplificados sobre políticas educacionais”. 

Nos EUA, o CPAC tem uma tradição de ouvir diferentes setores da direita. Aqui, o protagonismo dos bolsonaristas é uma marca da versão brasileira desde que o evento veio ao País, em 2019. 

Após a primeira edição, o CPAC Brasil teve uma troca no modelo de financiamento. Há dois anos, o evento foi sediado em São Paulo e pago pela fundação Instituto de Inovação e Governança (Indigo), vinculada ao PSL e mantida com recursos do fundo partidário. Agora, o responsável pela conferência é o Instituto Conservador-Liberal, fundado em dezembro por Eduardo. 

O filho do presidente tem dito que o CPAC Brasil não conta com nenhum tipo de financiamento público. O instituto cobra mensalidades de até R$ 50 a associados e também busca financiamento com doações de empresários simpáticos ao governo Jair Bolsonaro. A instituição não divulga quantos são os associados. As inscrições da conferência, que foram gratuitas em 2019, agora vão de R$ 50 para os membros até R$ 398 para o público em geral. 

O diretor do Instituto Conservador-Liberal é o advogado Sérgio Cabral Sant’Ana. Antes de assumir a entidade, ele foi assessor especial do ex-ministro Abraham Weintraub no Ministério da Educação (MEC) por um ano e três meses. Sant’Ana não ocupou cargos no governo desde então. A reportagem tentou contato com a entidade, mas não teve resposta. 

A conferência debate temas como educação, formação cultural, segurança pública, comunicação e ativismo político. Há palestrantes que estão em posições-chave para a definição das políticas do governo nessas áreas, como o Secretário Nacional de Fomento à Cultura, André Porciuncula, e o secretário de Alfabetização do MEC, Carlos Nadalim. O evento tem três ministros do governo confirmados: Tarcísio Freitas (Infraestrutura), Mário Frias (Cultura) e Onyx Lorenzoni (Trabalho e Previdência). 

Os atos marcados para 7 de setembro têm sido um tema frequente para parte dos participantes. O escritor Adrilles Jorge, por exemplo, defendeu na semana passada “um levante popular contra uma democracia corrompida por seus supostos guardiões”.

Dois policiais militares da reserva que falarão no evento já usaram seus perfis para defender as publicações do coronel Aleksander Lacerda, afastado da PM paulista após o Estadão mostrar que ele convocou “amigos” para as manifestações e reproduziu ofensas contra o ministro Alexandre de Moraes e o governador João Doria (PSDB). “Parabéns ao Coronel pelo posicionamento. A polícia é do POVO, e não desse governo omisso”, escreveu o tenente da reserva Nelson Santini Neto, ex-verador de Campinas, que falará na conferência. 

O capitão da reserva Guilherme Derrite, que é deputado federal, escreveu que “uma ordem absurda dessa por um posicionamento pessoal jamais deveria ter como punição a retirada do comando, sem direito à ampla defesa e contraditório”. Ao contrário dos militares da ativa, não há impedimento para que oficiais da reserva se manifestem politicamente. 

Origens da conferência

O CPAC teve sua primeira edição nos EUA em 1974, após o presidente Richard Nixon renunciar diante do caso Watergate. O evento foi criado pela American Conservative Union (ACU) e pela Young Americans for Freedom (YAF). A conferência cresceu durante os anos 1980 com a ascensão de Ronald Reagan.

A edição brasileira, idealizada por Eduardo Bolsonaro, serviu não só como vitrine para ideólogos do governo, mas também como ponte de relacionamento entre o deputado federal e trumpistas nos EUA. Eduardo se reuniu com o ex-presidente Trump no início de agosto e o convidou pessoalmente para o CPAC Brasil, como mostrou o Estadão.

Além do filho mais velho de Trump, entre os palestrantes americanos está o empresário Jason Miller, que criou a rede social conservadora Gettr e foi assessor do republicano na Casa Branca e durante a campanha presidencial no ano passado. Há também o consultor americano Charlie Gerow, que é vice-presidente da ACU. Gerow é dono de uma empresa de marketing político e pré-candidato a governador na Pensilvânia pelo Partido Republicano nos EUA.

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