Condutor e passageiros

O governo pode não saber direito se as medidas pró-consumo terão algum efeito real sobre os efeitos da crise econômica no Brasil, mas o presidente Luiz Inácio da Silva sabe perfeitamente o que faz quando pega no microfone e enche a alma do brasileiro de otimismo, dando à crise um sentido de intriga da oposição.Os resultados das últimas pesquisas de avaliação de desempenho mostram com nitidez a habilidade de Lula no manejo de emoções. Sem um dado preciso para embasar as opiniões, 62% das pessoas consideram que as medidas do governo estão no rumo certo e apenas 29% já sentem conseqüências negativas no dia a dia.Compare-se a quantidade de entusiastas ao contingente de afetados e não será difícil compreender a ascensão dos índices de popularidade de Lula à casa dos 80%. Se a maioria ainda não sentiu o problema no bolso, natural que a maioria prefira acreditar que nada de mau acontecerá.O equívoco de quem se surpreende com a capacidade de Lula de ficar no alto na adversidade é acreditar que popularidade está necessariamente ligada a razões objetivas, enquanto quase sempre guarda relação com motivações subjetivas.Lula pegou a coisa no ar quando a crise explodiu nos Estados Unidos. Jogou a culpa no colo de George Bush, depois transferiu responsabilidade ao "sistema" neoliberal e, enquanto apontava seus adversários políticos como torcedores do desastre, montava com capricho o nicho de onde reina quando é preciso tirar o corpo fora.De um lado, anunciando medidas para não vir a ser acusado de apatia governamental e, de outro, construindo o discurso triunfalista em ritmo de Brasil grande.Resultado, a maioria, quando perguntada, não tem dúvida: a crise é grave, mas o governo faz a sua parte.Uma brevíssima reflexão ensejaria a dúvida a respeito de qual parte mesmo se trata, mas no mundo das percepções captado pelas pesquisas, convenhamos, isso não passa de detalhe.Quase tão irrelevante quanto a relação direta entre os índices de preferência eleitoral obtidos pelo rol de possíveis candidatos a presidente e o comportamento do eleitorado daqui a um ano e dez meses.Só influem nas movimentações partidárias em torno dos pretendentes. Fora isso, vale quase zero saber que a oposição venceria qualquer candidato que não fosse Lula, que Dilma Rousseff é desconhecida por 48% das pessoas a despeito de sua exposição praticamente diária como candidata há dez meses e que 43% poderiam votar em quem o presidente pedisse.A transferência automática de votos observada na recente eleição municipal falou bem melhor sobre a distância entre o ato da venda e a decisão de compra do produto eleitoral.BolhaUm tantinho demasiada a interpretação de alguns senadores de que a pretensão do presidente do Senado, Garibaldi Alves, de se reeleger poderia abrir espaço à idéia de um terceiro mandato para governantes em geral - Lula em particular.A questão de Garibaldi não é institucional, embora seja matéria constitucional. Além disso, o plano diz respeito a um segundo e terceiro mandato.Como as excelências estão cansadas de saber disso, há má-fé por parte dos intérpretes: tanto dos que recorrem à alegação para não assumir a rejeição a Garibaldi Alves de novo, quanto dos eternos praticantes do "se colar, colou".A história é simples de ser resolvida. Se o PMDB quiser mesmo lançar o nome dele, uma rodada de consultas informais a ministros do Supremo Tribunal Federal resolve o problema da segurança jurídica.As condições e conveniências políticas da candidatura podem ser obtidas mediante sondagens no Senado mesmo. Considerando que o partido não vai entrar numa empreitada dessas para comprar briga com a Constituição nem com as intenções de voto dos senadores, a celeuma é desnecessária.A menos que haja no PMDB e no PT gente interessada em alimentar o contencioso entre os dois partidos para amanhã transformá-lo em pretexto. Cerca LourençoA motivação dos pemedebistas para o acirramento do conflito com os petistas seria 2010. Hoje o partido arrasta um bonde pela candidatura de José Serra não por amor às suas olheiras, mas por carinho ao primeiro lugar nas pesquisas.Uma minoria assume, a maioria faz juras de fidelidade ao presidente Lula a fim de manter uma política mais que de boa vizinhança, de ótima permanência.Entre os minoritários assumidos estão as seções do partido em São Paulo, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Piauí e Roraima.Entre os majoritários enrustidos se incluem todos os ministros, governadores e demais interessados nas verbas e nos cargos, cujo desfrute ainda se estende por mais dois anos. São facilmente reconhecíveis pelos elogios enfáticos em público e a descrença veemente em particular à candidatura Dilma Rousseff.

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