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Condução coercitiva exibe viés político em investigação

Estudiosos de Brasil na França destacam peso de investigação, mas relativizam estratégia da PF na Operação Lava Jato

Andrei Netto - CORRESPONDENTE EM PARIS, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2016 | 03h00

O depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Polícia Federal, na sexta-feira, em São Paulo, tende a agravar o acirramento político em torno dele e das investigações da Operação Lava Jato.

O alerta é de brasilianistas ouvidos pelo Estado. Para os estudiosos do Brasil, a condução coercitiva do líder histórico do PT prova que não há cidadão acima da lei, mas também pode indicar que as investigações sobre o escândalo de corrupção têm propósitos políticos.

Esses consensos foram manifestados por três dos mais importantes brasilianistas da França. Em uma semana marcada por outros dois fatos maiores – a decisão do Supremo Tribunal Federal de transformar o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em réu da Lava Jato e o vazamento do conteúdo da suposta delação premiada do senador Delcídio Amaral, ex-líder do PT no Senado –, o tema mais impactante foi o depoimento de Lula à Polícia Federal.

‘Fragilidade’. Para Stephane Monclaire, cientista político e professor da Université de Paris I – Panthéon-Sorbonne, que acompanhou os desdobramentos da crise política em Brasília, a ação da Polícia Federal e da Justiça não marca o fim do projeto PT, o que segundo ele já aconteceu há vários anos. “Hoje Lula se tornou uma pessoa comum. O mito Lula não existe mais”, disse Monclaire. “Isso faz sua fragilidade política – e não apenas a sua, mas a de seu partido. A queda de Lula é a queda de um partido e de um sistema para conservar o poder.”

Mas, na visão dos estudiosos de Brasil, a ofensiva da Justiça, da polícia e o vazamento de informações à imprensa são parte de uma estratégia. “Dá a impressão de que a Polícia Federal e a Justiça estão tentando passar uma imagem de imparcialidade”, destacou o geógrafo Hervé Thery, diretor do Centro de Pesquisa e Documentação sobre a América Latina (Credal), da França, e professor de pós-graduação da USP. “Em O Príncipe, Maquiavel já dizia que, se você tem de bater nos adversários, que o faça contra todos de uma vez só, e corte todas as cabeças.”

Polarização. Os três brasilianistas entendem que a condução coercitiva do ex-presidente revela fins políticos. “É saudável que um presidente não esteja acima da lei. Mas também não é útil que isso seja usado politicamente”, ponderou Gaspard Estrada, diretor do Observatório Político da América Latina e do Caribe, do Instituto de Estudos Políticos, de Paris.

“Era desnecessário que Lula fosse forçado a prestar depoimento, já que ele já esteve na Polícia Federal em Brasília para prestar depoimentos anteriores. A maneira como o Judiciário determinou que a PF procedesse criou um fato político, e isso no contexto da publicação da reportagem da IstoÉ (que revelou conteúdo do acordo de delação premiada em negociação hoje com a força-tarefa da Lava Jato).”

Os acadêmicos acreditam que a ação da Polícia Federal pode agravar o acirramento político no Brasil. “Tudo entra em um contexto de polarização política. Há fatos ainda não comprovados, e sobre os quais há uma investigação em curso”, ressaltou Estrada. No mesmo sentido, Thery afirmou: “A imagem do Brasil na França era a de consenso e de cordialidade, mas o antagonismo aumentou muito”.

Para os estudiosos, o País não poderá escapar de uma reforma do sistema político-eleitoral. “A Justiça, a Polícia Federal e outras instituições funcionam bem, e não creio que o Brasil esteja enfrentando uma crise do regime”, pontuou Monclaire. “Mas vai ser necessário que o Brasil reinvente seu sistema político.”

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