André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Condecoráveis inimigos da presidente

Cerimônia militar cria microcosmo da crise política enfrentada pelo governo Dilma

Tânia Monteiro, O Estado de S. Paulo

16 Abril 2015 | 14h51

Texto atualizado às 08h03 do dia 17/04/2015

BRASÍLIA - Se a atual conjuntura política do País precisasse ser resumida em um único dia, ontem seria o momento mais propício para a tarefa, e o Setor Militar Urbano, na área central de Brasília, o cenário desse microcosmo. A cerimônia de comemoração do Dia do Exército reuniu a chefe do Executivo, um de seus mais ferrenhos opositores, o político que mais lhe causou dissabores neste ano, o algoz de suspeitos de ligação com o maior esquema de corrupção já investigado no País e a instituição que, para setores sociais minoritários, mas barulhentos, seria a solução para um dos períodos mais conturbados em 30 anos de redemocratização.


Em uma manhã de céu claro e tempo mais estável que na Praça dos Três Poderes, a presidente Dilma Rousseff se viu condecorando com a Ordem do Mérito Militar o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) e o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, num total de 265 agraciados. No discurso, Dilma destacou em discurso a “confiança dos brasileiros” no Exército e na sua conduta “sempre segundo os preceitos constitucionais”.


Com o peemedebista que impôs a primeira derrota política do segundo mandato, Dilma procurou demonstrar simpatia. Por pelo menos duas vezes, trocou beijinhos com Cunha. Na fileira de trás estava Caiado, defensor do impeachment e da cassação do registro do PT por suspeita de uso de dinheiro desviado da Petrobrás. Ao colocar a medalha no pescoço do opositor, Dilma reservou apenas um protocolar aperto de mão.


Na mesma fileira de Cunha estava Janot, responsável pelo pedido de investigação do presidente da Câmara no Supremo Tribunal Federal por suspeita de envolvimento com o esquema desbaratado pela Operação Lava Jato. O procurador-geral também recebeu de Dilma, cujo partido é um dos principais alvos da apuração, a Ordem do Mérito Militar, mais elevada distinção do Exército. A medalha criada em 1934, sob o governo Getúlio Vargas, também foi entregue a dois ministros de Dilma: Jaques Wagner (Defesa) e Mauro Vieira (Relações Exteriores).



Nova Força. No calendário oficial, o Dia do Exército é 19 de abril, que em 2015 cai num domingo, dia da semana que por duas vezes neste ano foi palco de manifestações pelo País contra o governo e o PT. Nos protestos, uns e outros clamaram por intervenção militar como solução para os problemas da democracia brasileira.


No que depender dos discursos de ontem, esses setores podem recolher as faixas e poupar a garganta. Em sua primeira ordem do dia pública como comandante do Exército, o general Eduardo Villas Bôas falou quatro vezes em “uma nova Força Terrestre para o mesmo Exército” e ressaltou que a instituição se mantém “democrática e apartidária”.


Nas palavras do oficial, o Exército está “inteiramente dedicado ao serviço da Nação, desenvolvendo suas atividades em ambiente respeitoso, humano, fraterno, digno, honesto, disciplinado, responsável e solidário”. E prosseguiu: “Uma nova Força Terrestre para o mesmo Exército, sempre orgulhoso de sua história e apegado aos valores que o sustentam e lhe dão coesão, com forte senso de responsabilidade social, consciente da necessidade de ir além do que prescreve a destinação tradicional de uma força armada, ciente do papel de provedor de necessidades básicas de populações cuja segurança e até mesmo sobrevivência não encontram alternativas que não as proporcionadas pelo ‘Braço Forte - Mão Amiga’.”


A mensagem de Dilma, vestida com um blazer verde-oliva, foi lida por uma militar. No texto, a presidente destacou duas vezes que todas as missões do Exército são exercidas “nos limites de suas funções constitucionais”. “Organizado com base nos princípios de hierarquia e disciplina, nosso Exército sabe cultuar a solidariedade - na caserna também chamada de camaradagem - e a tolerância, valores que estruturam e cimentam as relações sociais nas democracias contemporâneas”. Para Dilma, a “confiança” e o “orgulho” da população em relação à Força Terrestre deve-se à presença parceira em operações de garantia da lei e da ordem ou em missões de paz “pelos quatro cantos do mundo”, além da “missão precípua de defender a Pátria”.


Num último sinal de consonância com a conjuntura, pela primeira vez não houve coquetel após as condecorações. Uma questão de prioridade orçamentária, disse o Exército.

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