Conde passou de apadrinhado a inimigo de Maia

Novo presidente de Furnas começou na política pelas mãos do prefeito do Rio

Alexandre Rodrigues, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2002 | 00h00

Arquiteto de destaque, Luiz Paulo Conde é conhecido na política do Rio como bonachão e colecionador de gafes. Começou na arquitetura sob a orientação de Affonso Reidy, de quem foi estagiário na construção do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio. Foi autor de projetos de destaque, como o campus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Estreou na política pelas mãos do prefeito Cesar Maia (DEM), hoje seu maior desafeto.Secretário municipal de Urbanismo no primeiro mandato de Maia, entre 1993 e 1996, Conde assinou intervenções urbanísticas como os projetos Rio-Cidade e Favela-Bairro e a construção da Linha Amarela, que deram popularidade ao prefeito. Lançado por Maia, sucedeu o padrinho político na prefeitura, derrotando o atual governador, Sérgio Cabral Filho (PMDB), na eleição de 1996.Curiosamente, foi para Maia que Conde sofreu a sua maior derrota. Ele fazia um governo com boa aprovação e tinha praticamente pavimentada a reeleição, mas perdeu a disputa em 2000 numa sucessão de erros que beneficiou Maia, já convertido em desafeto.Apesar de ter chegado na frente no primeiro turno, Conde perdeu a eleição na última semana do segundo, depois de se atrapalhar em debates no rádio e na TV. Num deles, chegou a ficar 30 segundos em silêncio enquanto tentava organizar os papéis que o ajudariam a argumentar.Ao acusar Maia de mentir cometeu a gafe que selaria sua derrota com a frase famosa: ''''Eu sou mais sincero, eu minto menos''''.Foi na tentativa de garantir a reeleição que Conde se aproximou do então governador, Anthony Garotinho (PMDB). O apoio de Garotinho foi classificado pelo ex-governador Leonel Brizola como ''''o beijo da morte''''.Ainda no PSB, foi eleito em 2002 vice-governador na chapa de Rosinha Matheus e, em seguida, acompanhou o casal Garotinho na migração para o PMDB.Aos 73 anos, o atual secretário de Cultura do Estado do Rio tem bom relacionamento com as várias alas do PMDB fluminense. Brincalhão e sorridente, tem fama de bom garfo.Na prefeitura e no governo estadual, defendeu projetos polêmicos que não foram adiante, como um trem que ligaria o Aeroporto Santos Dumont à Barra da Tijuca num trilho suspenso, passando pelo Jardim Botânico. Como vice-governador, teve de recuar quando sua proposta de construção de um muro para conter o crescimento da Favela da Rocinha repercutiu mal. Em 2004, tentou voltar à prefeitura, mas foi novamente derrotado por Maia.A Polícia Federal, na Operação Furacão, encontrou uma lista com doações de bicheiros a políticos do Rio entre 2001 e 2002, entre eles Conde. O então candidato a vice-governador teria recebido R$ 100 mil, mas ele não quis comentar a investigação da PF.Não é a a primeira vez que Conde assume um cargo distante do seu perfil. Na posse do governador Sérgio Cabral, em janeiro, pulou da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano, que ocupou no governo de Rosinha, para a pasta da Cultura. Antes de assumir, mais uma polêmica ao declarar que não considera música sertaneja cultura brasileira.Cesar Maia não poupou críticas, comparando ontem a indicação de Conde para a presidência de Furnas ao aparelhamento político da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac): ''''Será a reprodução da Anac em Furnas. Nomeação política sem relação com a área, que é estritamente técnica. Será o Conde Anac''''.

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