Concorrência na mídia contribuiu para erro nas eleições dos EUA

O editor-executivo do Miami Herald, um dos principais jornais da Flórida, nos Estados Unidos, Tom Fiedler, acredita que a concorrência entre os veículos de comunicação foi uma das principais causas de erros cometidos na cobertura das eleições americanas no ano passado. Fiedler que participou hoje, via satélite, do Seminário de Cobertura Política e Eleições, promovido pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), revelou que o jornal que edita chegou a dar duas manchetes num mesmo dia, em primeira e segunda edições, totalmente contraditórias.A primeira, com base em pesquisa de boca de urna, apresentava o então vice de Bill Clinton, o democrata Al Gore, como eleito presidente dos Estados Unidos. Já a segunda manchete, no mesmo dia, com base na contagem dos votos da Flórida, dizia que o eleito era George W. Bush.Para Fiedler, "a necessidade de oferecer uma informação rápida ao leitor, pode levar a erros, embora a pesquisa realizada fosse correta metodologicamente". Segundo ele, nos Estados Unidos há diferentes fusos horários, dentro até de um mesmo Estado, como a Flórida. Como o voto não é obrigatório, a sua divulgação e até manchetes de primeira edição podem influir na decisão do eleitor especialmente quando a disputa é muito acirrada, como foi o caso, em que a diferença ficou em menos de 500 votos na Flórida.Ele também responsabilizou o sistema eleitoral, com cédulas confusas, de perfurar, como um dos fatores que prejudicou o resultado da pesquisa de boca de urna. Esse tipo de pesquisa, segundo o editor-executivo, está fadada a acabar tão logo o processo seja automatizado e eletrônico, com os votos computados logo após o encerramento da votação, diminuindo assim a margem de erro em manchetes como as dessa eleição, cuja apuração levou 37 dias e só foi encerrada por decisões nos tribunais.O Miami Herald chegou a fazer, solicitando o acesso às 175 mil cédulas não conferidas da Flórida, um levantamento concluindo que mesmo se houvesse a recontagem, a vitória seria de Bush.Tom Fiedler destacou a imparcialidade do jornal na cobertura de todo o processo eleitoral, mesmo com o jornal tendo recomendado aos eleitores, no editorial, o voto em Al Gore. Nos Estados Unidos, disse ele, é comum o veículo se posicionar nas eleições, no espaço destinado ao Conselho Editorial.No Brasil, postura semelhante tem resultado em processos de direito de resposta. Para Marco Antonio Campos, consultor jurídico da ANJ, há um excesso de pedidos de direito de resposta e a Justiça Eleitoral não tem se mostrado uniforme nos despachos. Esse excesso de pedidos, acredita Campos, é maior quanto mais acirrada a disputa eleitoral, o que faz com que muitos candidatos procurem dessa forma, usando o expediente do direito de resposta, mesmo quando improcedente, manter a presença no noticiário. Em alguns casos, o espaço do direito de resposta, por determinação judicial, chega até mesmo a extrapolar o tamanho daquele que deu origem ao processo.Nas eleições do próximo ano, se não houver uma regra mais clara para que os juízes dêem as sentenças, Campos acredita que o excesso de pedidos de direito de resposta deverá permanecer. O que dificulta a cobertura jornalística e prejudica informações importantes ao eleitor na tomada de decisão.

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