''''Concorda com ingresso da Venezuela no Mercosul?''''

Debate

O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2007 | 00h00

SIMNão há nenhum argumento razoável capaz de justificar a não-entrada da Venezuela no Mercosul. É certo que uma das cláusulas do bloco, a exemplo de vários outros organismos multilaterais, defende o princípio da democracia. Nem por isso estes deixam de abrigar países com regimes não-democráticos.A situação política interna na Venezuela está indefinida. Isolá-la não seria conveniente nem para o Mercosul, nem para o Brasil e nem mesmo para os Estados Unidos. O caminho da construção das democracias sul-americanas é sinuoso e difícil. Mas parece não haver lugar duradouro para regimes que não se enquadrem em parâmetros democráticos.A história da diplomacia brasileira sempre se pautou pelo multilateralismo - tradição que nem sequer foi rompida durante o regime militar. As relações internacionais dos diversos países se definem pelo pragmatismo de interesses. Desse ponto de vista, é do interesse do Brasil ampliar a integração para além dos atuais parceiros do Mercosul, alargando-a para toda a América do Sul.A integração comercial, da infra-estrutura e energética é uma resolução irredutível, ditada pela necessidade e pelo processo que está em curso na região. Impedir o ingresso da Venezuela representaria apenas o adiamento de um evento que será inevitável. A entrada da Venezuela no bloco representará a totalização de 76% da produção sul-americana integrada no Mercosul. A Venezuela é o terceiro parceiro comercial do Brasil na região e tem a maior extensão de fronteiras com o nosso país. Empresas brasileiras investiram mais de R$ 20 bilhões no país vizinho e querem investir mais. Nenhum contrato está sendo ameaçado e há plena garantia dos investimentos.O Brasil se tornou, hoje, o principal investidor de IED (Investimento Estrangeiro Direto) nos países da América Latina. Os interesses do mercado e os interesses do Estado, nesse sentido, devem convergir para um único ponto: a integração regional.Por fim, a tradição do realismo político recomenda que nenhum país tem o direito de dar lições de moral ou de democracia a qualquer outro. Nós, brasileiros, precisamos, antes de tudo, fazer nossas lições de casa. *Aldo Fornazieri, diretor acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)NÃONão é a Venezuela; tampouco vantagens comerciais. No passado, éramos mais exigentes com a qualidade e a natureza do regime, a estética banana, o exemplo. Com razão, desqualificávamos os sucessos do Chile de Pinochet; demonizávamos os EUA por apoiarem ditaduras; combatíamos Franco e Salazar. Mas aquela radicalidade se perdeu.De fato, Hugo Chávez não chega a Pinochet e o antiamericanismo beirava o esquerdismo; a Venezuela não é a antiga Espanha, as condições de Portugal eram outras. Mas algo incomoda: a "democracia" venezuelana só pode ser assim nominada se estiver entre aspas. O homem é o estilo. Personalista, fanfarrão, truculento, belicista, caudilho não são qualidades democráticas. O coronel é o epicentro dos conflitos em seu país e a negação de um novo pacto; verborragia que acirra discórdia e encerra diálogos; deselegância que rompe respeito e estabelece intolerância; bravatas que impõem desconfiança; arrebatamento, qualidade dos não-sábios. Para que um companheiro desses?Éramos mais exigentes, talvez, porque o poder fosse quimera. Agora, diante dele, alguns se encantam: construir uma "democracia" baseada no líder e na sua relação direta com as massas, talvez. Na fácil retórica antiimperialista, desconsiderar o Estado de Direito, modificar oportunistamente regras eleitorais, erigir regime plebiscitário, modular a voz do povo como forma de calar a crítica. Também o nazismo teve apoio; Stálin foi deus; Mussolini, pop.A democracia, a economia e a sociedade contemporâneas requerem relações de outro tipo, a começar pela despersonalização, alternância de poder, pela admissão da alteridade, pela liberdade de expressão. Uma sociedade pode ser desigual, mas precisa ser livre. Sem liberdade, jamais deixará de ser desigual. Argumentos de toda ordem são utilizados para justificar a permissividade: sob o Mercosul, Chávez estaria contido e pior seria isolá-lo. Será? Apenas isso moderaria a fúria e alteraria a dinâmica política que implementou e parece difundir? Há também o interesse econômico; a balança comercial acima dos valores. Voltamos ao começo: no passado, éramos mais exigentes. *Carlos Melo, cientista político, doutor pela PUC-SP, professor de Sociologia e Política do Ibmec São Paulo. Autor de Collor: o ator e suas circunstâncias

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