Comunidades indígenas usam cinema para resgatar cultura

Curta que retrata ritual indígena foi produzido por participantes de uma oficina da ONG Vídeo nas Aldeias

Agência Brasil,

29 de novembro de 2007 | 22h27

Um ritual indígena de reconquista faz parte do filme que explica porque o pequi tem cheiro forte, segundo a lenda Kuikuro, povo do Alto Xingu. A trama do curta-metragem Imbé Gikegü - Cheiro de Pequi tem traição, assassinato e romance. Tudo com muito humor, já que o cheiro viria do sexo da mulher. Esse foi um dos vídeos apresentados nesta quinta-feira, 29, aos participantes da nona edição dos Jogos dos Povos Indígenas, que ocorre em Olinda (PE). O curta levou um ano para ficar pronto e foi produzido por participantes de uma oficina da organização não-governamental (ONG) Vídeo nas Aldeias para o projeto Documenta Kuikuro, em que a tecnologia é utilizada para manter a cultura. A festa do pequi foi escolhida porque ocorreu simultaneamente ao curso, que ocorreu em setembro. Segundo um dos diretores do filme, Maricá Kuikuro, a idéia do projeto de documentação é guardar as tradições para as próximas gerações, mas sob o olhar dos próprios índios. "A preocupação do cacique era perder tudo isso", disse. O projeto Documenta Kuikuro é coordenado pelos índios e pelos antropólogos Carlos Fausto e Bruna Franchetto do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Uma das lideranças Kuikuro, o velho Jakalo, disse a iniciativa é importante para os indígenas não correrem o risco de "esquecer a cultura", como outros povos que não lembram mais da língua e das festas nativas. "Outro dia, perguntei a um índio se ele falava a língua dele? E ele respondeu que não, tinha esquecido", recorda. Aí eu fiquei triste". A documentarista Mari Corrêa, dirigente da ONG Vídeo nas Aldeias, avalia que o projeto tem duas dimensões: a documentação e a dinamização da cultura. "A oficina gera uma dinâmica no momento, não no futuro. Com as filmagens, entrevistas e depoimentos, esse assunto da tradição, da transmissão do saber, vem à tona e todos começam a se interessar", explicou. O projeto também é realizado com outros 15 povos. Antes da exibição do vídeo Kuikuro, o presidente do Comitê Intertribal - Memória e Ciência Indígena, Marcos Terena, disse que os filmes produzidos pelos índios os retiram do "papel de zé-mane", em referência às telenovelas: "Apesar de sermos cerca de 500 milhões em uma população de 179 milhões de brasileiros não queremos ser os ‘mudos’ da história".

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