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Pandemia escancara desigualdades sociais no Brasil, dizem analistas

Debate da Brazil Conference at Harvard & MIT contou com a participação do apresentador Luciano Huck, do deputado federal Felipe Rigoni e da diretora-executiva da Oxfam Brasil, Katia Maia

Bianca Gomes e Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2020 | 18h30
Atualizado 28 de abril de 2020 | 15h24

A pandemia de coronavírus escancarou desigualdades sociais no Brasil e será o principal desafio do País no pós-crise. Este é o consenso a que chegaram os participantes do painel desta segunda, 27, da Brazil Conference at Harvard & MIT, evento anual da comunidade brasileira de estudantes em Boston. O debate aconteceu por videoconferência e contou com a participação do apresentador Luciano Huck, do deputado federal Felipe Rigoni (PSB-ES) e da diretora-executiva da Oxfam Brasil, Katia Maia

Cotado para a disputa da Presidência da República em 2022, Huck (sem partido) reconheceu a gravidade do vírus e disse há risco de que as desigualdades no País sejam ampliadas após a pandemia. "Acho que a melhor arma contra o vírus seria todo mundo alinhado, uma narrativa única ancorada na ciência e na medicina. Não é o que estamos vivendo no momento", afirmou Huck, em referência aos posicionamentos do presidente Jair Bolsonaro em relação ao isolamento social - contrários às orientações das autoridades sanitárias e à Organização Mundial da Saúde.

"O real impacto do que acontece agora vai aparecer quando voltarmos à normalidade, com as pessoas enfrentando a falta de crédito, falta de emprego", diz Huck. "Adoraria que enfrentássemos isso de forma organizada, mas não é nossa realidade. Tenho medo da pressão social pós-pandemia."

Nascido e criado em favelas e fundador do projeto social Primeira Chance no Complexo da Coruja, em São Gonçalo, no Rio, Douglas Oliveira foi incluído no painel por Huck. Durante a pandemia, ele arrecadou 1,5 mil cestas básicas para doação.  "A pandemia mostra que a gente precisa estender nossas mãos uns para os outros."

Huck disse que o Brasil nunca foi tão solidário e que, como parte da parcela mais rica da população, se sente na obrigação de ajudar. "A elite da qual faço parte sempre foi acusada de passividade. Chegou o momento desse 1% fazer parte da solução. Não consigo ver um problema e não achar que faço parte dele." 

"É um momento importante falar de desigualdade. Estamos falando de abismos entre cidadãs e cidadãos", disse a socióloga e diretora-executiva da Oxfam Brasil, Katia Maia. "Nos últimos anos, a riqueza daqueles que já são super-ricos só aumenta, enquanto os trabalhadores têm um volume cada vez menor de recursos."  

Katia cita ainda elementos da desigualdade brasileira que saltam aos olhos no momento da pandemia, como a falta representatividade da população negra e das mulheres na política. Outra questão importante nesse cenário é tributação, diz a socióloga. "Temos um sistema que contribui para uma injustiça muito grande na forma como é feita a cobrança dos impostos e como o gasto social, o investimento na sociedade, é colocado." 

O deputado federal Felipe Rigoni (PSB-ES) propôs que, após a pandemia, o Brasil se esforce em frentes como garantia de renda, saneamento, educação profissional, proteção ao trabalho e assistência social. Para ele, a pandemia deve piorar a desigualdade no Brasil de forma mais acentuada do que outros países.

"O Brasil entrou na pandemia despreparado em muitos sentidos. Isso torna o agravamento (dos efeitos do vírus) pior", disse o deputado. "A gente vai ter que ter um esforço muito maior para não ter um colapso maior. A desigualdade é o desafio central que o Brasil deve enfrentar. Entramos nessa crise com um Estado fiscalmente desequilibrado. Isso o torna menos capaz de dar respostas fiscais e políticas a esse momento."

Meritocracia

Huck levantou a discussão sobre meritocracia no painel. "As oportunidades são distintas. Tem uma discussão grande sobre sucesso e fracasso. Quem está fazendo a sociedade funcionar de verdade neste momento é o caminhoneiro, o entregador de comida, o cara que trabalha na fármacia. Todos trabalhadores historicamente mal remunerados."

"O discurso de meritocracia no Brasil passa a imagem de que pobre e preto é preguiçoso", reforçou Katia. "Neste momento, como você vai de meritocracia quando as pessoas que estão segurando a onda são os serviços básicos, essenciais, que estão funcionando. É esta população que está na ponta."

O painel integra uma programação que tem debatido temas como desenvolvimento econômico, empreendedorismo e startups e desigualdade. Ainda participarão da edição online da Brazil Conference o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), os governadores João Doria (PSDB-SP), Helder Barbalho (MDB-PA) e Renato Casagrande (PSB-ES), entre outros.

Veja a programação:

27/4

Desigualdade, às 19h

Covid-19 e a desigualdade econômica no Brasil

Luciano Huck, Felipe Rigoni e Kátia Maia

28/4

Política externa do Brasil: presente e futuro, às 19h

Aloysio Nunes, Celso Amorim, Celso Lafer, Hussein Kalout, Rubens Ricupero e Vera Magalhães (moderação)

1º/5

Programa de Embaixadores Brazil Conference, às 17h

10 jovens brasileiros com projetos de impacto social selecionados pela conferência serão entrevistados por Pedro Bial

5/5

Como nos tornarmos um Estado reformista?, às 19h

Rodrigo Maia, Paulo Hartung, Marcos Mendes e Eliane Cantanhêde (moderação)

7/5

Os desafios dos Estados na Crise, às 19h

João Doria (SP), Helder Barbalho (PA) e Renato Casagrande (ES) e Andreza Matais (moderação)

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