Comitês já empregam 60 mil profissionais só para área digital

Apesar do contingente, cientistas políticos avaliam que candidatos pouco exploram o potencial da internet

GABRIEL MANZANO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2014 | 02h03

A maioria dos quase 24 mil candidatos a algum cargo nestas eleições está recebendo uma advertência de assessores e amigos: a campanha estará nas redes sociais, quer eles façam algo a respeito ou não. E se eles não falarem bem de si mesmos, alguém ocupará o espaço falando mal. O resultado dessas previsões é que pelo menos 60 mil pessoas estão trabalhando nos comitês especificamente na área digital das campanhas.

A conta é do cientista político Fernando Azevedo, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e foi apresentada em um dos painéis do 9.º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, realizado na semana passada em Brasília.

As estimativas, segundo Azevedo, são de que essa área movimente, mensalmente, em torno de R$ 120 milhões para atingir cerca de 65 milhões a 70 milhões de eleitores jovens, entre 16 e 34 anos. "A web terá muito mais importância agora. Teremos mísseis teleguiados de todo lado", disse, referindo-se às campanhas negativas na internet.

Esses "mísseis" circularão entre cerca de 85 milhões de pessoas, lembrou outro debatedor, o professor Wilson Gomes, da Universidade Federal da Bahia.

O tema do debate era uma comparação entre o papel das mídias tradicionais - jornais, rádio e TV - e o das "novas", as redes sociais, na campanha. Uma das conclusões foi que a maioria dos políticos não sabe usar as novas mídias: eles gostam mesmo é de programas na TV. Assim, entrevistas em jornais e debates no rádio e na televisão mantêm sua centralidade na disputa. "O fluxo da pauta continua ocorrendo da velha para a nova mídia", diz Luiz Felipe Miguel, da Universidade de Brasília (UnB).

Receptor. Outra constatação foi que, nas redes sociais, o candidato não sabe quem é o receptor de sua mensagem - o universo de internautas é muito mais amplo. Azevedo e Gomes lembraram que essa "modernização" de técnicas eleitorais não representa avanço para a democracia. "Continuamos com a velha receita. Um produto, chamado candidato, é vendido a um consumidor, o eleitor", diz Azevedo. "Tudo é visto, monitorado, denunciado, distorcido, mas nenhum candidato nos diz o que pretende fazer para arrumar a economia em 2015."

Como ironiza Gomes, "há um exército de blogueiros com máquinas de Steve Jobs e coração de militantes". "Espera-se que aprendam a fazer melhor uso desses instrumentos."

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