Comissões da Verdade discutem caso de chineses presos pela ditadura brasileira

Delegação estrangeira veio ao País durante a ditadura para estabelecer relações comerciais; grupo foi preso e expulso do Brasil e teve todo seu dinheiro apreendido

Thaise Constâncio, O Estado de S. Paulo

26 de setembro de 2014 | 14h06

 Rio - Na manhã desta sexta-feira, as comissões estadual e nacional da Verdade se reuniram para debater o episódio conhecido como "Caso dos Nove Chineses", durante a ditadura civil-militar brasileira. Em 1961, uma delegação chinesa chegou ao Rio de Janeiro para estabelecer relações comerciais entre os países. Tendo em vista as diferenças políticas e ideológicas entre os dois países - a China era comunista e o Brasil iniciava a Política Externa Independente, apesar da proximidade com os Estados Unidos - desde que desembarcaram, os membros da comissão foram vigiados pela polícia brasileira e acabaram presos em 1964.

Apesar do apelo internacional e da falta de provas, foram condenados a dez anos de prisão sob a alegação de tentativa de destruir a ordem social e política do País e manter no Brasil um serviço secreto de espionagem.

Em abril de 1965, os nove chineses foram expulsos do Brasil e todo o dinheiro que tinham no País (120 milhões de cruzeiros ou US$ 53 mil, em valores da época) foi apreendido por meio de depósito no Banco do Brasil. Agora, os membros das comissões pedem que o governo brasileiro anule a sentença, revogue o decreto de expulsão que dura até hoje e devolva o dinheiro que pertence legalmente aos cinco chineses sobreviventes e aos familiares dos outros quatro que já morreram. 

"(Ao resgatar o debate e pedir a reparação) Estamos cumprindo uma obrigação em nome do povo brasileiro que é tirar essa vergonha dos nossos ombros", disse Eny Moreira, membro da Comissão Estadual da Verdade do Rio (CEV-Rio).

Muito emocionado, o advogado Danilo Santos, que na época trabalhava com a missão chinesa e ficou preso com eles por um dia, afirmou que, até hoje, os chineses se ressentem do fato de o governo brasileiro não ter tentado reparar esse episódio. "Diziam que os chineses já tinham esquecido (as torturas sofridas por seus cidadãos), mas ninguém esquece ter apanhado", ressaltou.

Ao saber de um episódio protagonizado pelo ex-governador Carlos Lacerda, que articulou para que os Estados Unidos propusessem a troca dos nove chineses presos no Brasil por americanos detidos em território chinês, João Vicente Goulart, filho do ex-presidente João Goulart, afirmou que "a ditadura brasileira se mostrou não apenas cruel, como também lacaia dos Estados Unidos". "Essa atitude é de um servilismo internacional impressionante". O episódio é narrado no livro "O caso dos nove chineses", dos jornalistas Murilo Fiúza de Melo e Ciça Guedes.

O embaixador Antonio de Moraes Mesplé, representante da Presidência da República na Comissão Nacional da Verdade, espera que o caso seja solucionado até o fim do ano. "Nossas relações são boas, temos uma parceria estratégica global com a China. Esse fato não ficou esquecido, mas adormecido. Sou otimista que, até o fim do ano, teremos acontecimentos positivos para definitivamente superar esse problema".

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