Comissões da Verdade chegaram tarde demais, diz estudioso

Brasilianista Kenneth Serbin diz, em entrevista ao Estado, que as atuais investigações sobre violações de direitos humanos na ditadura dificilmente irão trazer resultados concretos

Isadora Peron, O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2013 | 17h04

O brasilianista Kenneth Serbin disse nesta sexta-feira, 20, que a Comissão da Verdade, que tenta esclarecer violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, deveria ter sido feita durante a década de 1990, logo após o fim da ditadura militar (1964-1985). Ele disse não acreditar que as atuais investigações irão trazer algum resultado concreto.

“As comissões da verdade chegaram tarde demais (no Brasil). Elas deveriam ter sido feitas durante os anos 90. Com o tempo, o povo começa a esquecer o que foi o regime militar. As novas gerações já nasceram sob a democracia", afirmou Serbin, durante depoimento na Assembleia Legislativa de São Paulo, em um evento conjunto da Comissão Nacional da Verdade e da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” .

“É bom que haja essas comissões, mas olhando como historiador, acho que demorou demais”, afirmou.

Serbin creditou a demora de dar início a esse tipo de investigação à cultura política do Brasil, que teria como característica o “esquecimento”. “Na política brasileira existe uma tendência de esquecer o passado e começar de novo. Do zero”, disse. Para ele, a Lei da Anistia de 1979, que estendeu o perdão político a agentes do Estado que praticaram tortura, quis “esquecer os dois lados e seguir em frente”.

Mais tarde, em uma palestra aos alunos do Curso de Jornalismo do Estado, Serbin retomou o assunto. Disse que não vê como reverter as perdas que a distância temporal causou nesse processo e que falta "vontade política" para que se tenha algum resultado concreto das comissões.

“Criarem-se comissões da verdade para inglês ver. Para se eximir da culpa. Mas essa comissão da verdade deveria ter sido feito pelo governo Fernando Henrique Cardoso, o Lula poderia ter feito. Não dá para culpar a Dilma se nada acontecer”, afirmou.

Serbin fez ainda duas outras críticas às comissões. Diz que há muitas no Brasil, enquanto deveria haver apenas uma, que concentrasse as investigações.

“Pelo que tenho observado, são comissões demais, deveria haver uma comissão só. Era melhor juntar forças, recursos e fazer um trabalho nacional, no lugar de fazer tantas comissões em tantos lugares.”

Ele também criticou a composição das comissões, formadas muitas vezes por pessoas que viveram sob a repressão do regime, e diz que isso não traz independência para os trabalhos.

"Eu acho que essas comissões têm muito nomes do passado. Eu não sei se uma comissão deveria ter tanta gente que sofreu sequelas do regime. Tenho a sensação de que não tem independência.”

Para esse problema, ele deu duas sugestões : formar comissões com pessoas mais novas, como jovens promotores, ou trazer pessoas de fora do Brasil, de lugares como Chile, que já passaram processos semelhantes.

Serbin, que é especialista em história recente do Brasil, disse que não tem acompanhado de perto o trabalho das comissões porque tem se dedicado a outras causas, no campo da história da ciência, para estudar questões relacionadas à Doença de Huntington (um distúrbio neurológico hereditário), da qual é portador.

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