Comissária da ONU acha díficil que Dilma consiga desarmar Irã

Para número 1 de Direitos Humanos da entidade, capacidade de influência do Brasil e de outros países sobre o Terrã é limitada

Jamil Chade, de O Estado de S.Paulo,

14 Dezembro 2010 | 19h23

GENEBRA - O Brasil "fracassou" em sua tentativa de conseguir que o Irã fosse desarmado. A avaliação é da número 1 da ONU para Direitos Humanos, a sul-africana Navi Pillay. Em entrevista ao Estado, a alta comissária da ONU deixou claro que a capacidade de o Brasil e outros países de influenciar Teerã é limitada. Comemorando nesta quarta-feira o Dia Internacional dos Direitos Humanos, Pillay ainda apontou para os desafios que a presidente eleita Dilma Rousseff terá nos próximos anos, tanto internamente como em relação às obrigações internacionais do Brasil.

 

"Lula foi até o Irã e fracassou em conseguir que se desarmassem", afirmou a sul-africana. Questionada se a próxima presidente brasileira conseguiria, Pillay foi pessimista. "É difícil", alertou.

 

Em maio deste ano, Lula foi até Teerã e, ao lado da Turquia, fechou um acordo nuclear. O entendimento previa que o Irã enviaria 1.200 kg de urânio de baixo enriquecimento (3,5%) para a Turquia em troca de combustível enriquecido a 20% para um reator nuclear a ser usado em pesquisas médicas em Teerã. Mas o projeto não foi aceito por Estados Unidos e Europa e o Brasil acusou Washington de ter traído sua confiança. O Itamaraty alega que negociou o acordo justamente nas bases apontadas pelos americanos.

 

Nos últimos meses, o Brasil tem ainda adota uma posição conciliadora em relação ao Irã, insistindo às potências do Conselho de Segurança de que sanções não resolverão o problema nuclear iraniano. Há menos de um mês, o Itamaraty ainda optou por se abster em uma resolução na ONU que condenava o apedrejamento de mulheres. O chanceler Celso Amorim afirmou há duas semanas que não votava na ONU "para agradar a imprensa ou uma certa ONG".

 

Mas, no domingo passado, Dilma admitiu em entrevista ao Washington Post que o voto brasileiro havia sido um erro. Questionada sobre os comentários de Dilma, Pillay foi cautelosa. "Estou olhando atentamente a isso. Mas ainda não me reuni com ela", disse.

 

Favelas

 

Mas não é apenas a questão internacional que chama a atenção da ONU. Para Pillay, Dilma terá o desafio de dar uma solução à situação de violência e de violações de direitos humanos nas favelas do País.

 

"Estamos muito preocupados com a forma que estão lidando com as favelas", afirmou Pillay. A sul-africana, que já foi presidente de tribunais internacionais, se referia aos últimos incidentes no Rio de Janeiro, com a presença do exército nas favelas e as operações de controle de certas regiões.

 

Questionada sobre o uso do exército de forma prolongada para manter a ordem nas favelas do Rio, a representante máxima da ONU para direitos humanos foi dura. "Se isso ocorrer, então teremos de relembrá-los das obrigações que eles tem em proteger os direitos humanos e suas obrigações internacionais", alertou.

 

Há um ano, a ONU já atacou a construção de um muro nas favelas do Rio, questionou as megaoperações e ainda criticou a violação contra os direitos dos moradores.

 

Anistia

 

Outro apelo da ONU é para que Dilma acabe com a lei da anistia, um pedido que as Nações Unidas já fazem há anos e que acreditava que poderia ver avanços durante o governo Lula. "Pedimos a ela (Dilma) para finalmente examinar o passado e as atrocidades que ocorreram no Brasil", disse Pillay. "Esses crimes não podem passar impunes. A lei de anistia não pode continuar", completou.

 

Há poucos meses, Pillay esteve no Brasil e se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo funcionários internacionais que estiveram no encontro, a sul-africana foi dura em sua conversa, o que fez Lula "fechar a cara". Em sua recente viagem ao Brasil, Pillay ainda alertou que o País precisa "lidar com seu passado".

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