Comissão ouve religiosos que colaboraram com ditadura

O grupo de trabalho da Comissão Nacional da Verdade que se propõe a esclarecer a atuação de igrejas durante a ditadura militar poderá chamar a depor religiosos que colaboraram com o regime. São pessoas de difícil identificação, já que seus nomes não constam de documentos, e que não seriam necessariamente obrigados a falar o que sabem, segundo Jorge Atílio, coordenador do grupo.

ROBERTA PENNAFORT, Agência Estado

18 de setembro de 2013 | 17h45

Na terça-feira, 17, em depoimento à comissão no Rio, o economista e ex-preso político Marcos Arruda, preso e torturado em 1970, contou que, na cadeia, esteve com dois capelães. Arruda disse a um deles que sua vida dependia que sua família fosse avisada de sua detenção, mas ainda assim o religioso se recusou a ajudá-lo.

Sabe-se que havia capelães dentro dos quartéis do DOI-Codi que tinham conhecimento das torturas e silenciavam a respeito. Há relatos de delações por parte de religiosos que resultaram em detenções e demissões.

Nesta quarta-feira, 18, a historiadora e ex-presa Jessie Jane relatou que o então arcebispo do Rio Dom Eugenio Sales (1920-2012) proibia que os presos políticos tivessem assistência dos religiosos da pastoral carcerária, diferentemente do que acontecia com os presos comuns.

No outro extremo, Jessie relatou a solidariedade que recebeu de Dom Waldyr Calheiros, bispo de Volta Redonda, que a acolheu e lhe deu trabalho quando de sua saída de nove anos de prisão, em 1979.

"Eu ficava intrigada: como é que podia uma mesma igreja ter um homem do sistema, como Dom Eugenio, e Dom Waldyr, que abraçava os direitos humanos para além das ideologias?", contou Jessie. Ela citou também o padre italiano Renzo Rossi (1925-2013), que auxiliou militantes de esquerda, visitou presídios e ajudou em fugas.

"Todas as igrejas tiverem os dois lados, o dos que ajudaram a criar o clima que possibilitou o golpe e depois aderiram, legitimaram e consolidaram a ditadura, e os que resistiram. Existe muita literatura sobre a resistência e quase nada sobre o colaboracionismo", explicou o cientista social e ex-preso Anivaldo Padilha, que idealizou o grupo justamente com o objetivo de fazer essa revisão histórica.

O segundo a depor nesta quarta foi o padre Geraldo Lima, que exaltou o trabalho de Dom Adriano Hipólito (1918-1996), bispo de Nova Iguaçu. Ele chegou a ser sequestrado, torturado e ter bombas jogadas em seu carro e dentro de sua igreja por sua defesa dos direitos humanos.

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