Comissão da Verdade: Rubens Paiva morreu no DOI-Codi

De posse de novos documentos que esclarecem a prisão do ex-deputado Rubens Paiva, o coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Cláudio Fonteles, afirmou nesta segunda-feira que é possível desmentir a versão oficial e afirmar "categoricamente" que Paiva foi morto nos porões do DOI-Codi. Fonteles também negou rumores de que a presidente Dilma Rousseff estaria insatisfeita com a atividade do grupo e cogitaria inclusive substituir alguns de seus integrantes.

RAFAEL MORAES MOURA, Agência Estado

04 de fevereiro de 2013 | 19h35

"Afirmo categoricamente que ele (Rubens Paiva) foi morto no DOI-Codi. Pra mim, (isso) está esclarecido, só falta pontuar agora quem foi que matou, o nome da pessoa. Quem matou foi o Estado militar, esse sistema mata, agora alguém deu um tiro, deu socos", disse Fonteles a jornalistas, após reunião da comissão em Brasília. Fonteles observou, no entanto, que não está com a "palavra final".

Em novembro passado, a comissão recebeu papéis encontrados na casa do coronel reformado do Exército Júlio Miguel Molinas Dias, assassinado quando chegava a sua casa, em Porto Alegre. Segundo Fonteles, documento do próprio Exército detalha a passagem de Rubens Paiva no DOI-Codi.

"O documento demonstra que do dia 20 ao dia 25 (de janeiro de 1971), o que se passava com o Rubens Paiva. Ora, segundo a versão oficial, teria sido morto dia 22 de janeiro, esses documentos que marcam toda a sua trajetória nos porões do DOI-Codi não fazem nenhum registro à morte dele", disse o coordenador da comissão.

Um outro documento, o informe nº70 do DOI-Codi, explica como o ex-deputado foi levado de casa por agentes do Cisa, órgão de inteligência da Aeronáutica. "Fica claro que, membros do Cisa, que é o serviço de informações da Aeronáutica, prendem Rubens Paiva e mais duas senhoras, e entregam essas pessoas ao DOI-Codi", afirmou Fonteles. No caso, as duas senhoras teriam desembarcado no Rio de Janeiro com cartas de exilados políticos no Chile para serem entregues a Rubens Paiva. O informe foi encontrado no Arquivo Nacional, em Brasília.

Agora, a comissão deverá tentar localizar os agentes do Cisa, informou o coordenador. "A documentação é muito forte, é prova documental que vem do próprio sistema ditatorial com a tarja de ''secreto''", disse.

Críticas

Fonteles rebateu críticas de que Dilma estaria insatisfeita com o andamento dos trabalhos do grupo. "Eu acho que crítica é válida, mas tem de provar. Se você for no nosso site, vai ver a quantidade de audiências públicas que a gente tem ido para fomentar essa grande rede (de informação), já percorremos mais de 11 Estados", rebateu o coordenador, que deverá marcar uma reunião da comissão com a presidente nas próximas semanas. "Não somos caixa preta. Que a sociedade critique o trabalho, colabore, contribua."

Segundo Fonteles, a partir do dia 15 de fevereiro o ex-ministro Paulo Sérgio Pinheiro assume a coordenação da comissão. Entre os objetivos do grupo estabelecidos em lei estão "esclarecer os fatos e as circunstâncias dos casos de graves violações de direitos humanos" entre 1946 e 1988 e "promover o esclarecimento circunstanciado dos casos de torturas, mortes, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres e sua autoria, ainda que ocorridos no exterior".

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