André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Comissão da Verdade do Rio identifica o responsável pelo atentado a bomba na OAB-RJ, em 1980

Testemunha diz ter visto o sargento paraquedista do Exército Magno Cantarino Mota, conhecido como Guarany, entregar a bomba; informação ainda não havia sido revelada porque depoente não se sentia seguro para identificar o militar

Juliana Dal Piva, O Estado de S. Paulo

11 de setembro de 2015 | 15h18

Atualizado às 19h22

RIO - Há pouco mais de 35 anos uma bomba explodiu na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no centro do Rio e chocou o País em meio ao processo de abertura política. O atentado do dia 27 de agosto de 1980 tinha como alvo o então presidente da entidade, Eduardo Seabra Fagundes, mas matou sua secretária, Lyda Monteiro.

Na investigação feita ainda na ditadura militar, o inquérito apontou como responsável pelo crime um extremista de direita. Nesta sexta-feira, 11, após dois anos de investigação, a Comissão da Verdade do Rio (CEV-Rio) apresentou outra versão. No relatório apresentado, uma testemunha aponta o sargento paraquedista do Exército Magno Cantarino Mota, conhecido pelo codinome de Guarany, como a pessoa que entregou a bomba que matou Lyda.

Sob a condição de anonimato, a testemunha disse que um homem trajando camisa e calça social a abordou no hall da OAB por volta das 11h para perguntar onde ficava a sala da secretária do presidente. O homem tinha estatura média, cabelos encaracolados abaixo das orelhas e aparentava cerca de 30 anos. Sem desconfiar, a testemunha entrou com ele no elevador e informou que a sala ficava no quarto andar, antes de descer no terceiro. Alguns minutos depois, ouviu a explosão.

"Aqui (na foto) ele aparece de corpo inteiro e isso propiciou que a testemunha afirmasse com clareza e certeza que esse era o rapaz com quem ela dialogou naquele dia", disse a jornalista Denise Assis, pesquisadora da CEV-Rio, ao apresentar as imagens por meio das quais a testemunha identificou o agente Guarany. Uma foto mostra o militar ao lado do Puma onde estava o corpo do sargento Guilherme Pereira do Rosário, após a explosão da bomba do Riocentro, em 1981.

A partir desse dado e de outros depoimentos, a comissão concluiu que a antiga especulação de que o mesmo grupo que planejara o atentado do Riocentro também atacara a OAB se confirmou. "Os fatos estão absolutamente interligados. Os mesmos elementos que estiveram no Riocentro também estiveram aqui em 27 de agosto de 1980. Todo o perfil desses agentes comprova que eram homens treinados para tortura e atentados à bomba", afirmou Wadih Damous, deputado federal e ex-presidente da CEV-Rio, que iniciou as investigações do caso.

Rosa Cardoso, presidente da comissão, disse que a testemunha ainda se sente insegura e sua identidade será mantida em sigilo a seu pedido. "Ela amadureceu muito a decisão de fazer esse reconhecimento. Por muitos anos ela sabia quem era essa pessoa, mas os próprios parentes a impediam de dizer", afirmou Rosa. Outros três testemunhos obtidos apontam que a ordem para o atentado partiu do coronel Freddie Perdigão Pereira, já falecido, e que o explosivo foi montado pelo sargento Rosário, morto no Riocentro. As informações foram prestadas pelo ex-delegado Claudio Guerra e pelo militar aposentado Emanuel Pontes. "Foi ele quem levou aquela bomba à OAB. Ele não pode continuar negando isso. Rosário fez a bomba, mas foi ele quem levou", disse Pontes à comissão.

Perdigão trabalhou mo Centro de Informações do Exército (CIE) - núcleo de inteligência ligado ao gabinete do ministro do Exército durante a ditadura. Ele foi apontado pelo Ministério Público Federal como um dos responsáveis pelo atentado no Riocentro e ainda pela prisão do deputado federal cassado Rubens Paiva, assassinado sob tortura no Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) em 1971.O Estado tentou contato com o agente Guarany, mas seus telefones encontravam-se indisponíveis. Um estava desligado. Outro, permanentemente ocupado. Ele mora em um bairro pobre na zona oeste do Rio.

A OAB desempenhava papel importante na campanha pela redemocratização. O advogado Luiz Felippe Monteiro, filho de Lyda, disse que sofreu muito com o descaso do estado e exigiu que o Ministério da Defesa apresente desculpas formais a ele e à família."Já vi meus filhos mais velhos estudarem o caso no ensino médio, porém não havia desfecho nos livros escolares. Agora, meus filhos pequenos, quando chegarem lá, terão a história completa, com todos os elementos devidamente registrados", desabafou. O presidente do Conselho Federal da OAB, Marcus Vinicius Coelho, disse que entregará os resultados da investigação ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, na próxima semana. Como a Lei de Anistia abrange crimes até 1979, os integrantes da comissão acreditam que Guarany poderá ser processado pelo atentado.

Lyda Monteiro tinha 59 anos e morreu a caminho do Hospital Souza Aguiar. Outro funcionário ficou ferido, mas sobreviveu. No mesmo dia, uma carta-bomba explodiu no gabinete do então vereador Antônio Carlos de Carvalho (MDB), ferindo seis servidores.


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