Comércio e parcerias - os novos focos do Itamaraty

A substituição do chanceler Luiz Felipe Lampreia pelo embaixador Celso Lafer no comando do Ministério das Relações Exteriores marcará uma mudança de orientação na política externa brasileira. O Itamaraty dará maior ênfase às questões comerciais e a parcerias com o setor privado. ?Ele dará um reforço às áreas econômica, de promoção comercial e de tecnologia, procurando dar prioridade às exportações e à defesa dos interesses econômicos nacionais no exterior?, disse um diplomata próximo ao embaixador.A posse do cargo está marcada para o dia 29, mas Lafer já está mantendo contatos com lideranças empresariais.O embaixador já começou a formar a sua equipe de trabalho. Ele vai manter o embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa como secretário-geral e promete reforçar a área de Comunicação do ministério. Para tal, já pediu ao ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Alcides Tápias, que devolva ao Itamaraty o ministro Fernando Barreto, especialista em assuntos ligados à Organização Mundial do Comércio (OMC) e investimentos externos. Barreto tem assessorado Tápias em questões internacionais.O embaixador Lafer também pediu ao vice-presidente Marco Maciel que devolva o diplomata Pedro Luiz Rodrigues, que tem experiência na imprensa e atualmente assessora o Palácio do Planalto.O principal negociador internacional da pasta continua sendo o embaixador José Alfredo Graça Lima, que passará a ter maior respaldo no posto.ÊnfaseA mudança de orientação também é a expectativa de empresários e intelectuais, para quem o Itamaraty vai ganhar um caráter mais comercial.Na opinião deles, a experiência de Celso Lafer como embaixador na OMC deverá ser a principal ferramenta do Ministério das Relações Exteriores para imprimir um estilo mais agressivo na conquista de novos mercados internacionais e na defesa comercial do Brasil.?Lafer deverá trabalhar no processo de readequação do Itamaraty, ampliando a parte comercial e trazendo mais especialistas e negociadores da iniciativa privada. Isso vai criar uma maior identificação da pasta com a sociedade?, disse o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva.Na avaliação do empresário, Lafer terá a oportunidade de conduzir uma mudança cultural no ministério. ?Há uma resistência cultural no Itamaraty a fazer substituições ou agregar novas pessoas à estrutura já existente. Lafer compreende bem o sentido de urgência da economia real e o espírito de resultados?, afirmou. Na opinião do empresário, a experiência empresarial do embaixador, que já esteve à frente de empresas como a Klabin e a Metal Leve, vai ajudá-lo a mobilizar o setor privado para conseguir bons resultados nas negociações internacionais.Alca?Os próximos anos serão cheios de desafios que poderão ser transformados em oportunidades.? Piva referia-se à formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), cujas negociações deverão ser concluídas até o fim de 2004; a rodada do Milênio, que vai passar em revista as regras da OMC; as negociações entre a União Européia e o Mercosul e a própria consolidação do bloco sul-americano, que vem passando por crises desde 1999.O futuro chanceler tem confidenciado a diplomatas que, apesar de sua admiração pela estrutura da OMC (da qual quase foi presidente), ratificada várias vezes em suas publicações, tem duras críticas ao sistema da entidade, que privilegia os países mais ricos.Na opinião do cientista político Bolívar Lamounier, Lafer reúne exatamente as qualificações necessárias para a pessoa que irá comandar o Itamaraty nos próximos anos. ?É a pessoa certa na hora e no lugar certo?, disse. Segundo ele, o Brasil será beneficiado pela experiência de Lafer na OMC e na área de Direito Internacional, na disputa entre as fabricantes de jatos Embraer e Bombardier que, acredita, encontra-se em um momento crucial. ?Essa disputa importantíssima mostra o papel cada vez mais internacional do Brasil e Lafer tem as credenciais para lidar com isso?.Amor à primeira vistaO ministro Alcides Tápias, que vai trabalhar em parceria com Lafer para aumentar as exportações, também comemorou a nomeação. ?Quando conheci o Lafer, foi amor à primeira vista e tenho certeza de que vamos fazer um excelente trabalho?, disse Tápias. Como mostra da sintonia entre ambos, ele contou que, quando foi indicado para o Desenvolvimento, foi à casa de Lafer pedir conselhos sobre o funcionamento do governo.

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