Começa reformulação na TV Cultura

Emissora corta atrações; hip-hop se mobiliza nas redes sociais para protestar contra fim de programa

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

06 Agosto 2010 | 00h05

Começou a reformulação na TV Cultura. Após reunião durante a tarde desta quinta-feira, 5, com o setor de programação da emissora, as equipes de produção e apresentadores dos programas Manos & Minas e Login foram comunicadas que essas atrações estavam extintas. O Vitrine foi suspenso, segundo informado à sua equipe, para que seja "repensado". Segundo a reportagem apurou, outro programa suspenso indefinidamente é o Clássicos, que transmite música erudita ao vivo e em reprises.

 

A emissora negou que tenha havido demissões e, em nota oficial, disse que "não houve qualquer corte", e que "os profissionais serão avaliados e podem vir a ser aproveitados em outras produções". Entretanto, alguns funcionários que integravam as atrações cortadas da grade de programação falaram à reportagem e disseram que, das 20 pessoas envolvidas na produção, ficarão apenas os que não eram contratados como pessoas jurídicas (umas três, do total).

 

Segundo a assessoria de imprensa da emissora, o programa Login continua a ser exibido por mais um tempo; não há data definida para ele sair do ar. "Também não procede a informação sobre a extinção de um programa erudito". O último Manos e Minas a ser exibido, segundo a TV Cultura, irá ao ar no sábado, dia 14.

 

A descontinuidade desses programas foi anunciada por João Sayad, presidente da Fundação Padre Anchieta, em entrevista ao Estado. "Queremos ter uma grade estável e que seja reconhecida pelo público, com ênfase nos jornais, na exibição de documentários e filmes. Mas vamos manter aquilo que representa o espírito da TV Cultura, como o Roda Viva, o programa da Inezita, o Rolando Boldrin e o Provocações", afirmou Sayad.

 

A extinção do Manos & Minas, um dos raros a tratar de hip-hop na TV brasileira (um dos poucos que conseguiu uma entrevista com o rapper Mano Brown, dos Racionais MCs), gerou grande movimentação nas redes sociais da internet durante toda a tarde, chegando ao topo dos trending topics do Twitter. Foi iniciada uma petição online para que a TV Cultura reveja sua posição, e os usuários da rede falam em convocar uma manifestação contra a decisão.

 

Manos & Minas mantinha 1 ponto de audiência na grade da emissora. Segundo o rapper Emicida, ganhador de um prêmio MTV Brasil e apresentador de um quadro do programa (A Rua é Nóiz), não foi apresentado nenhum argumento plausível para o encerramento da atração.

 

"Hoje eu me senti como um daqueles operários de uma montadora que é vítima de uma demissão em massa, aquelas de 2 mil pessoas, como se fosse uma peça da engrenagem", disse Emicida. "Para mim, não altera substancialmente minha vida, porque faço muitas outras coisas, mas é triste perder um espaço desse porte para a cultura hip-hop", afirmou.

 

Segundo informou uma fonte ligada à direção da Fundação Padre Anchieta, o tamanho da "gordura" que a administração da emissora pode vir a cortar "dependerá da nova grade". O movimento na TV provocou apreensão nos sindicatos dos Radialistas e Jornalistas, que pediram uma audiência com a direção da TV Cultura. A emissora confirmou que tem realmente um encontro marcado com os sindicalistas, mas não deu detalhes.

 

Na reunião em que foram comunicadas as mudanças, os executivos da televisão informaram aos funcionários apenas que, a partir de agora, a TV vai ter "outra cara", e evitou apresentar argumentos baseados em pesquisas ou rastreamento de audiência. A TV Cultura tem cerca de 1,9 mil funcionários, e os comentários é que as demissões começaram por Brasília, onde possui uma sucursal.

 

"As pessoas vão fazer barulho, vão querer uma justificativa plausível. É dinheiro do governo. E para quem está se organizando, isso tudo está começando bem bagunçado", disse outro funcionário da TV que foi dispensado na tarde de quinta, mas que preferiu não se identificar.

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