Começa a corrida atrás dos milhões

Sucessão. Coordenadores das campanhas presidenciais elegeram os setores em que vão buscar fundos: os petistas darão preferência à indústria naval e às empresas de construção; os tucanos pretendem procurar exportadores insatisfeitos com a política cambial

11 Julho 2010 | 02h27

Comitê de Dilma busca contribuição de setores em expansão

Indústria naval, bancos, construção civil e outros segmentos aquecidos são alvos da campanha petista para arrecadar R$ 157 mi

João Domingos / BRASÍLIA

A coordenação da campanha da petista Dilma Rousseff trabalha para arrecadar R$ 157 milhões - R$ 30 milhões deverão vir do caixa do PMDB - baseada em um raciocínio bem simples: assim como os pobres, que as pesquisas indicam estar satisfeitos com o governo Lula, os ricos também estão.

Os arrecadadores de Dilma avaliam ter vantagem em relação a José Serra e preveem receber, em doações, até três vezes mais do que o adversário, embora o tucano tenha estimado gastos maiores - R$ 180 milhões. Um dos coordenadores da campanha de Dilma arriscou-se a dizer que “para cada R$ 0,1 para Serra, Dilma terá R$ 0,3”.

De acordo com os petistas, os empresários têm dito que não há motivos para queixas. Como para eles Dilma é a continuidade do atual governo, não haveria motivos para os empresários negarem as contribuições eleitorais quando forem procurados.

A indústria naval, por exemplo, que estava quebrada antes do início do governo de Luiz Inácio da Silva, foi reativada graças, principalmente, às encomendas da Petrobrás. A estatal do petróleo já anunciou que investirá R$ 52 bilhões na próxima década.

A descoberta do petróleo na camada pré-sal vai movimentar ainda mais o setor. Já há 424 encomendas até 2020, sendo 146 de apoio para alto mar, 47 plataformas, 164 navios, 46 navios-tanques e 28 sondas que devem começar a operar a partir de 2013. Quatro estaleiros já estão aptos para construir plataformas.

Lucros recordes. Os petistas dizem que o setor financeiro não teve dificuldades nem durante a crise econômica internacional deflagrada em 2008. Isso graças a programas incentivados pelo governo, que blindaram os bancos com uma forte movimentação de dinheiro no mercado interno e possibilitaram a alguns deles, como o Bradesco, terem em 2010 o maior lucro da história.

Soma-se a isso o crescimento da indústria da construção pesada no Brasil e exterior, com abertura de mercados em países da América Latina, como Bolívia, Peru, Argentina, Equador e Venezuela, por conta de financiamentos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aos vizinhos. A exigência feita para os empréstimos é que os governos dos países contratem empresas brasileiras.

Segundo o raciocínio dos coordenadores da campanha do PT, o mercado da construção civil está superaquecido graças ao programa Minha Casa, Minha Vida, que no governo de Lula promete construir 1 milhão de casas. Dilma já anunciou que, se eleita, tocará a segunda fase do projeto, agora com 2 milhões de casas - os números são citados em discursos, mas não aparecem nos documentos oficiais do programa.

Os petistas também incluem entre os setores que tiveram expansão no governo de Lula a indústria da carne, de automóveis, petroquímica, eletroeletrônicos e de informática, além da recuperação do setor calçadista.

Palocci. Para correr atrás do dinheiro dos ricos, o comitê de Dilma destacou o deputado Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda com trânsito entre todos os empresários. Palocci até desistiu de concorrer à reeleição. Vai dedicar-se integralmente à campanha, missão que já começou.

Palocci delegou a outros três petistas a incumbência de passar o chapéu junto ao setor empresarial para arrecadar o dinheiro necessário: José Eduardo Dutra, presidente do PT e coordenador da campanha, José Eduardo Cardozo, secretário-geral do PT, e José de Filippi Júnior, que foi o tesoureiro da campanha para reeleição de Lula, em 2006.

Candidato a uma cadeira de deputado federal por São Paulo, Filippi terá de fazer jornada dupla para conseguir o dinheiro e ainda cuidar de sua campanha. Ele foi três vezes prefeito de Diadema e, nos últimos meses, estava morando nos Estados Unidos, para temporada de estudos.

Filippi foi chamado às pressas para assumir a missão de tesoureiro da campanha de Dilma após o nome de João Vaccari Neto, escolhido para a função, ser envolvido no escândalo da Bancoop - fraudes que teriam sido cometidas pela diretoria da cooperativa, sob o comando de Vaccari, destinadas a beneficiar candidatos do PT. O caso está sendo investigado por uma CPI da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Tucanos apostam em exportadores e empresas aéreas

Classe média rural e setor financeiro também estão na mira do PSDB, que ainda pretende captar doações pela internet

Christiane Samarco / BRASÍLIA

O tucanato aposta em duas “novidades” nesta eleição presidencial para driblar a dificuldade que a oposição geralmente enfrenta na hora de arrecadar recursos e financiar a campanha: o engajamento da classe média rural e a participação de pessoas físicas com doações de valores mais modestos, via internet. Mas, novidades e circunstâncias à parte, tudo será feito sem descuidar do setor financeiro.

Para fortalecer as finanças da campanha os tucanos listaram alguns setores da economia como alvos dos arrecadadores, a começar pelos exportadores sempre queixosos da política cambial que Serra promete mudar. Da mesma forma, estão na mira as empresas de transporte aéreo que integram a lista das mais prejudicadas por uma alta do dólar.

Estudos do banco JP Morgan revelam, por exemplo, que uma alta de 10% do dólar levaria a uma perda de R$ 70 milhões nas receitas da empresa aérea GOL - considerando o cenário em que as demais variáveis permaneçam constantes.

Bancos. Hoje, como nas últimas campanhas do PSDB à Presidência, a expectativa geral é de que as doações mais vultosas venham dos bancos.

Não por acaso, quem está à frente da estrutura de arrecadação é o engenheiro e economista Sérgio Silva de Freitas, de 67 anos, que foi vice-presidente do Banco Itaú e secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão do banqueiro Olavo Setúbal.

A amizade com Serra vem desde 1984, um ano antes da morte de Tancredo Neves, quando Freitas foi escalado para tranquilizar o empresariado quanto ao risco de guinadas na economia. Há mais de dois meses ele vem participando de reuniões com o time das finanças da campanha tucana e tem sido apresentado a empresários como o responsável pela arrecadação.

Sérgio de Freitas não está sozinho na ofensiva do tucanato para engordar o caixa da campanha. O ex-deputado e ex-banqueiro Ronaldo Cezar Coelho, outro amigo de Serra há mais de 20 anos, trabalha desde o início do ano para demover qualquer resistência do setor ao eventual governo tucano, diante das críticas de Serra à política dos juros altos e à atuação do BC.

Com a experiência de quem já coordenou as finanças da campanha presidencial de Geraldo Alckmin em 2006, o presidente da João Fortes Engenharia e ex-deputado Márcio Fortes só não está à frente do comitê arrecadador de Serra porque tem de se dedicar à campanha no Rio de Janeiro, onde é o candidato a vice-governador na chapa de Fernando Gabeira (PV). Ainda assim, ele também é peça-chave na conquista de doadores de vulto pelo perfil eclético.

Fortes já passou pela Secretaria-Geral do Ministério da Fazenda, pela presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pela direção de vários órgãos de classe, como a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e o Clube de Engenharia.

‘Poder de fogo’. A presidente da Confederação Nacional da Agricultura, senadora Kátia Abreu (DEM-TO), diz que não fará campanha em nome da CNA e lembra que, por lei, a entidade não pode fazer doações para nenhuma campanha. “Mas poder de fogo para arrecadar nós temos”, avisa, destacando que os produtores rurais, na condição de pessoas físicas, têm o “direito de trabalhar” pelo candidato que fizer as melhores propostas para o setor.

Na contabilidade tucana, a classe média rural brasileira, que reúne 2,3 milhões de produtores, pode fazer a diferença na eleição. Afinal, bastaria cada um deles contribuir com R$ 100 para que a campanha colocasse R$ 230 milhões no cofre. “O Serra não tem muita proximidade com o agronegócio, mas tem quem tenha”, adverte a senadora, lembrando que o setor representa um terço do Produto Interno Bruto (PIB) e 42% das exportações brasileiras.

O candidato a vice na chapa tucana, deputado Índio da Costa (DEM), é um dos que vão usar a internet como instrumento de arrecadação. “Hoje eu falo para 300 mil pessoas diretamente no meu site e tenho 40 mil seguidores no Twitter”, ressalta.

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