Combativo e impetuoso, Chinaglia nunca foi ligado a Lula

Apesar de líder do governo durante os dois últimos anos, o novo presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), nunca foi ligado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar disso, construiu uma relação de proximidade com o ex-ministro e deputado cassado José Dirceu. Arlindo, como é chamado pelos parlamentares mais próximos, decidiu lançar-se candidato contra a vontade do Palácio do Planalto. Acabou atraindo a adesão do numeroso e contraditório PMDB e encerrou sua campanha com o apoio de um robusto bloco partidário de 273 deputados, incluindo os partidos envolvidos no escândalo do mensalão. Não contou, porém, com todos estes votos. Sua vitória em segundo turno foi garantida com 261 votos. Classificado como explosivo e truculento por funcionários e colegas, o parlamentar de cabelos brancos e médico por formação protagonizou ao longo da carreira alguns desentendimentos pessoais. Quase saiu no tapa com o deputado Inocêncio Oliveira (PR-PE), hoje seu apoiador, e mandou o tucano Aécio Neves calar a boca durante uma discussão, há quase dez anos. Segundo colegas, ele carrega qualidades de um comandante de guerra: sabe desenhar estratégias de sucesso em combates difíceis. "É um homem combativo", avaliou o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP). Apesar de ser colega de partido, os dois parlamentares sempre estiveram em lados opostos nas questões partidárias. O Dr. Neto do passado agora exige ser chamado pelo sobrenome, desde que usado na pronúncia italiana: "Quinalha". Ao longo da campanha, intitulou-se um perseguido pela imprensa. Não tem bom relacionamento com a maioria dos jornalistas que fazem a cobertura da Câmara. Por diversas vezes, foi visto em bate-boca com repórteres. Para funcionários de seu gabinete, ele é centralizador e enérgico. "O tipo do chefe exigente que demite por telefone quando acha algo errado", disse à Reuters, sob condição do anonimato, um servidor que já trabalhou para o deputado. No ano passado, Arlindo Chinaglia sofreu um sério acidente de carro às vésperas da eleição. Mesmo sem fazer campanha, foi eleito com 170 mil votos, a segunda maior votação de um deputado federal do PT em São Paulo. "Ele é decidido, de convicções políticas firmes. Quando você consegue convencê-lo, ele aceita sua tese", disse o deputado Odair Cunha (PT-MG), um de seus "soldados" na disputa pela presidência da Casa. Eleito com 261 votos, o petista assume o terceiro mais importante cargo da República. A partir de agora, terá pela frente a difícil missão de liderar a já chamada "operação merthiolate" para curar feridas políticas, como disse o presidente Lula nesta quinta-feira. A disputa pelo comando da Casa dividiu a base do governo e expôs um sentimento contra o que partidos da esquerda aliada classificam de "ânsia hegemônica" do PT.

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