Breno Laprovitera/ALEPE
Breno Laprovitera/ALEPE

Comandante do Nordeste é o mais cotado para substituir Pujol no Exército

Contrário à politização das Forças Armadas, atual comandante deixa hoje o cargo; nome cotado é de Freire Gomes

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2021 | 08h00

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro poderá repetir a ex-presidente Dilma Rousseff e quebrar uma tradição no Exército se decidir nomear como próximo comandante do Exército o general Marco Antônio Freire Gomes. Comandante militar do Nordeste, Gomes é o nome mais cotado nos bastidores do governo para substituir o comandante do Exército, Edson Leal Pujol, mas o presidente foi aconselhado a considerar outras opções para não criar atritos com generais mais experientes. O novo ministro da Defesa, general Walter Souza Braga Netto, vai conversar nesta quarta-feira, dia 31, com os oficiais indicados em listas tríplices para Exército, Marinha e Aeronáutica.

A cúpula das Forças Armadas foi demitida nesta terça-feira, dia 30, um dia após a queda do então ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Além de Pujol, deixam os cargos os comandantes da Marinha, Ilques Barbosa Junior, e da Aeronáutica, Antonio Carlos Moretti Bermudez.

Os três comandantes receberam o aviso em encontro com Azevedo e Braga Netto. A reunião teve momentos de tensão. O Estadão apurou que o mais exaltado no encontro foi o almirante Ilques Barbosa, da  Marinha, com reações que beiraram à insubordinação, conforme relatos de presentes. Auxiliares dele minimizam o episódio e dizem que houve um debate sem exaltação. Há uma tentativa de serenar os ânimos nas Forças Armadas, principalmente na Marinha.

Na segunda-feira, o encontro de Azevedo com Bolsonaro durou três minutos. O tom foi seco. "Preciso do seu cargo”, disse o presidente ao então ministro da Defesa. Auxiliares do general dizem que ele já desconfiava estar na berlinda por ter sido contrário à tentativa de Bolsonaro de substituir Pujol, o comandante do Exército.

Desde a semana passada, Azevedo vinha sendo cobrado por demonstrações de mais apoio político a Bolsonaro. O presidente queria um sinal claro do Exército, mas não recebeu. Em conversas reservadas, oficiais militares dizem que Azevedo perdeu o Ministério da Defesa porque se opôs à nova ofensiva de Bolsonaro para remover Pujol. O Estadão apurou que o então comandante do Exército se recusou a politizar as Forças Armadas, como queria o presidente.

Na hierarquia militar, os recém-exonerados comandantes estavam acima do novo ministro da Defesa, Braga Netto, pelo critério de antiguidade. No Exército, a tradição da escolha dos comandantes obedece à antiguidade dos generais de quatro estrelas, ou seja, quem tem mais tempo no topo da carreira. Em 2015, a então presidente Dilma ignorou isso e escolheu de uma lista tríplice o general Eduardo Villas Bôas, que à época era comandante de Operações Terrestres. Villas Bôas era o terceiro na ordem. Ela foi a última a desconsiderar o critério, mas também houve casos anteriores, nos governos Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.

Freire Gomes tem uma passagem recente pelo Planalto. Foi secretário-executivo do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no governo Michel Temer. Apesar de ter a preferência no Planalto, pesa contra ele o fato de ser muito “moderno”, o que pode provocar insatisfações na hierarquia militar e uma série de mudanças administrativas, caso seja nomeado.

Segundo militares que acompanham a negociação, para nomear Freire Gomes Bolsonaro teria de “aposentar” seis generais mais antigos que ele. Isso porque eles passam à reserva se um oficial mais "moderno", com menos tempo de Exército, for alçado ao comando. A aposentadoria não é uma regra compulsória, mas costuma ter força de norma não escrita nos quartéis. Os oficiais costumam pedir para deixar a ativa como forma de não serem comandados por um antigo subordinado, uma inversão na hierarquia.

Ao escolher Freire Gomes, Bolsonaro pode escapar ainda de outro nome que está prestes a se tornar o mais antigo entre os generais de quatro estrelas: o atual comandante de Operações Terrestres, general José Luiz Dias Freitas. À frente dele estão apenas os generais Décio Luís Schons e César Augusto Nardi de Souza, que passarão oficialmente à reserva a partir desta quarta-feira, dia 31, e já foram substituídos no Alto Comando.

Atualmente o mais antigo, Schons chefia o Departamento de Ciência e Tecnologia e antes estava na Escola Superior de Guerra. Nardi era o chefe de Assuntos Estratégicos do Ministério da Defesa.

O general Marcos Antonio Amaro dos Santos, chefe do Estado-Maior do Exército, cuidou da segurança da ex-presidente Dilma e foi chefe da Casa Militar no governo dela. Depois dele, vêm os generais de Exército Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, chefe do Departamento-Geral do Pessoal, e Laerte de Souza Santos, comandante logístico.

José Freitas teria, por tradição, a preferência para assumir o comando. Ele é apontado por deputados, senadores e militares como alguém que se opõe às mais recentes investidas políticas de Bolsonaro na caserna. Assim, estaria alinhado aos generais Fernando Azevedo e Silva, ex-ministro da Defesa, e ao agora ex-comandante Pujol. A escolha de Freitas é considerada pouco provável por generais.

Em abril de 2018, ele apoiou a manifestação no Twitter do ex-comandante Villas Bôas, que gerou pressão sobre o Supremo Tribunal Federal às vésperas do julgamento de um recurso que poderia evitar a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Villas Bôas afirmou que o Exército compartilhava o "anseio dos cidadãos de bem de repúdio à impunidade" e se mantinha "atento às suas missões institucionais". 

“Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais?”, questionou Villas Boas. Em seu perfil no Twitter, Freitas compartilhou a mensagem. "Mais uma vez o comandante do Exército expressa as preocupações e anseios dos cidadãos brasileiros que vestem fardas. Estamos juntos, comandante Villas Bôas", escreveu ele, na ocasião.

Neste ano, o episódio do tuíte voltou à tona com a revelação de Villas Bôas, em depoimento a um livro da Editora FGV, de que teve aval do Alto Comando para publicar aquela mensagem. Esta versão provocou manifestações de repúdio de ministros do Supremo. Após a anulação da condenação de Lula, neste mês, os militares preferiram o silêncio.

Na Força Aérea Brasileira, a lista é encabeçada pelos tenentes-brigadeiros do ar Carlos de Almeida Baptista Júnior, do Comando Geral de Apoio, Luiz Fernando de Aguiar, do Comando de Preparo, e Marcelo Kanitz Damasceno, chefe do Estado-Maior da Aeronáutica.

Baptista Júnior é o mais cotado. Nas redes sociais, ele costuma divulgar mensagens otimistas sobre a vacinação no País, em linha com a estratégia de comunicação do Palácio do Planalto, além de curtir críticas de deputados e influenciadores bolsonaristas a “comunistas”. Esse comportamento é bem visto no Palácio do Planalto, além de ser considerado um ponto que conta a favor dele por oficiais consultados pela reportagem.

Um nome bem quisto por oficiais influentes no governo Bolsonaro é o do tenente-brigadeiro do ar Marcelo Damasceno, terceiro na lista de antiguidade da FAB. Ele é chefe do Estado Maior da Aeronáutica. Antes, foi chefe do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica e teve grande exposição durante a Operação Regresso, que resgatou brasileiros isolados em Wuhan, na China, por causa da pandemia do novo coronavírus.

Na ordem de antiguidade da Marinha, estão os almirantes de esquadra Alípio Jorge Rodrigues da Silva, comandante de Operações Navais, Almir Garnier Santos, secretário-geral do Ministério da Defesa, e Marcos Silva Rodrigues, chefe do Estado-Maior da Armada.

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