Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Governo troca comandantes das Forças Armadas, após reunião tensa com ministro da Defesa

Decisão foi comunicada, segundo a pasta, na reunião dos três oficiais com o novo ministro, Walter Braga Netto, e o antecessor, Fernando Azevedo e Silva

 Roberto Godoy, Eliane Cantanhêde e Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2021 | 12h23
Atualizado 30 de março de 2021 | 22h23

BRASÍLIA – Em uma situação inédita na história do País, os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica foram demitidos em conjunto, nesta terça-feira, 30, por se recusarem a politizar as Forças Armadas. A ordem partiu do presidente Jair Bolsonaro que, no dia anterior, também dispensou o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, sob o argumento de que precisava da tropa alinhada com o governo. A intervenção de Bolsonaro nas Forças Armadas na semana em que o golpe militar de 1964 completa 57 anos acabou unindo os generais, que disseram não aceitar nenhum tipo de ruptura institucional ou afronta à Constituição.

Comandada pelo novo ministro da Defesa, Walter Braga Netto, a reunião que selou a saída dos comandantes Edson Pujol (Exército), Ilques Barbosa Júnior (Marinha) e Antônio Carlos Bermudez (Aeronáutica) foi marcada por frases duras e tapas na mesa. O movimento para enquadrar os militares ocorre em um quadro de perda da popularidade de Bolsonaro diante do agravamento da pandemia de covid-19, que registrou novo recorde de mortes, com 3.668 vidas perdidas em 24 horas.

Braga Netto abriu a reunião com Pujol, Ilques e Bermudez, pela manhã, dizendo que as substituições eram necessárias para o “realinhamento” das Forças Armadas com Bolsonaro e a manutenção do apoio ao governo. Horas depois, divulgou uma nota na qual chama o golpe de 1964 de “movimento” a ser celebrado.

Na noite de segunda-feira, Pujol havia reunido o Alto Comando do Exército para discutir o que estava acontecendo no governo Bolsonaro. Ali ficou definido que os militares – até agora um dos pilares da administração do capitão reformado do Exército – não aceitariam pressões para entrar no debate político. Todos os comandantes haviam planejado entregar os cargos, em solidariedade à demissão de Azevedo, embora Ilques e Bermudez considerassem a possibilidade de ficar, dependendo do teor das conversas.

Nenhum deles, porém, teve tempo de se manifestar. Braga Netto já estava com a demissão dos três pronta, como revelou o Estadão. A portas fechadas houve várias contestações sobre os motivos que levaram à dispensa. Um dos oficiais questionou o ministro, em tom ríspido, ao lembrar que as Forças Armadas são instituições de Estado, e não de governo. 

‘Meu Exército’ ​

Em recentes manifestações, no entanto, Bolsonaro tem se referido ao Exército como “meu Exército”, apesar de se queixar, nos bastidores, do afastamento dos militares. “Podem ter certeza de uma coisa: o meu Exército não vai para a rua para obrigar o povo a ficar em casa”, afirmou o presidente, no último dia 8, numa referência a medidas tomadas por governadores e prefeitos para conter a disseminação do coronavírus. Ainda ontem, em conversa com apoiadores, ele bateu na mesma tecla. “Eu jogo dentro da Constituição. Há algum tempo, algumas autoridades não estão jogando no limite da Constituição.”

A decisão de mudar o comando do Ministério da Defesa e das Forças Armadas foi tomada por Bolsonaro junto com outras cinco trocas no primeiro escalão. Além do titular da Defesa foram substituídos também, na segunda-feira, os ministros de Relações Exteriores, Justiça, Secretaria de Governo, Casa Civil e Advocacia-Geral da União. Braga Netto, por exemplo, era da Casa Civil.

O comandante mais exaltado na reunião com Braga Netto, era o almirante Ilques, conhecido por ser um cavalheiro, extremamente cortês. Nas Forças, o maior foco de críticas a Bolsonaro é a Marinha, que vive apontando a falta de compostura do presidente. Ao lado de Ilques, Pujol entrou no gabinete do ministro todo paramentado, com botas de montaria e carregando um bastão de comandante. Também reagiu aos comentários do ministro, mas não tanto quanto o colega da Marinha, que perdeu a paciência e elevou a voz. Quando o clima ficou tenso, os ajudantes de ordens foram saindo “à francesa” do gabinete. 

Os oficiais já haviam combinado na véspera, após a demissão de Azevedo, que não dariam qualquer passo que pudesse violar a Constituição ou caracterizar interferência em medidas tomadas por governos estaduais durante a pandemia de covid-19, como o lockdown. As Forças Armadas também deixaram claro que jamais aprovariam ingerência no Legislativo e no Judiciário.

Em conversas reservadas, generais disseram ao Estadão que discordaram da decisão de Bolsonaro de recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) para derrubar toques de recolher impostos por governadores da Bahia, do Distrito Federal e do Rio Grande do Sul. O então chefe da Advocacia-Geral da União, José Levi, se recusou a assinar a ação apresentada por Bolsonaro no Supremo para derrubar decretos nesses três Estados, que endureciam as restrições à circulação de pessoas e por isso foi demitido.

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