Comandante da Marinha reclama royalties do petróleo

No momento em que o governo brasileiro abre os cofres para a Aeronáutica a fim de enfrentar a crise no controle de tráfego aéreo, a Marinha pressiona os dirigentes do país por sua fatia dos royalties do petróleo para construir novos navios.O novo comandante da Marinha brasileira, almirante Julio de Moura Neto, afirmou que esse braço das Forças Armadas enfrenta uma grave falta de verba depois de passar uma década recebendo menos dinheiro do que o necessário. O cenário pode significar, no médio prazo, a aposentaria de navios de guerra sem que novos sejam construídos para substituí-los."Houve uma degradação das embarcações, dos aviões da Marinha e de outros equipamentos. Tivemos uma melhora em termos financeiros depois de 2004, mas isso não foi suficiente para reverter o processo de degradação, algo que é uma situação insustentável", afirmou, em entrevista concedida por telefone na noite de quinta-feira, 5.O comandante argumenta que a Marinha é responsável por manter a calma nas águas territoriais onde está a maior parte dos poços de petróleo do Brasil e deveria receber toda a fatia dos royalties de exploração de petróleo a que, por lei, tem direito, especialmente depois de o maior país da América Latina ter se tornado, em 2006, auto-suficiente em termos petrolíferos.O governo, argumenta Moura Neto, reteve nos últimos anos R$ 2,7 bilhões da fatia dos royalties a que a Marinha tinha direito, provocando um atraso no programa de reaparelhamento, que deveria ter começado em 2006.Outros R$ 850 milhões estão sendo retidos em 2007, disse Moura Neto. "Com esse dinheiro, poderíamos dar início ao programa de reaparelhamento neste ano. Tudo poderia ser feito com o dinheiro do petróleo, um dinheiro que é nosso por lei", disse o comandante, nomeado para o cargo em março. Os cerca de R$ 550 milhões do Orçamento da Marinha para 2007 são suficientes apenas para honrar os gastos com a manutenção da força, afirmou. Proteção às plataformas"A Marinha precisa ter navios suficientes para estar presente onde for necessário. Protegendo as plataformas de petróleo, por exemplo, de uma eventual infração ou de um acidente", disse o almirante.A primeira fase do programa de reaparelhamento, que duraria até 2013, custaria cerca de US$ 2,6 bilhões. O plano avança até 2026 e prevê a construção de um novo submarino, de nove navios grandes de patrulha e outras embarcações. Os cinco submarinos existentes atualmente seriam modernizados. Apenas o projeto envolvendo os submarinos custará cerca de US$ 1,4 bilhão.Apesar das queixas, Moura Neto afirmou estar otimista quanto à possibilidade de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva repassar dinheiro para todos os ramos das Forças Armadas do País se modernizarem.Assustado com as paralisações realizadas pelos controladores de tráfego aéreo e com as falhas em equipamentos, que causaram uma situação caótica no setor de viagens aéreas, o governo aumentou em mais de três vezes os gastos com a Força Aérea nos primeiros três meses do ano.Analistas dizem que as paralisações vêm prejudicando a popularidade de Lula e que todos os gastos militares precisam ser impulsionados para manter os militares contentes e evitar novas crises.Moura Neto também disse que o governo ainda tinha de escolher qual modelo de submarino será construído no Brasil por uma empresa estrangeira. Estão sendo avaliados o submarino classe Scorpene, da francesa Armaris, e o submarino alemão IKL-214, da HDW-ThyssenKrupp. "Ainda não há decisão. Há uma grande possibilidade de que optemos pelo IKL já que possuímos outros submarinos IKL. Mas há outras possibilidades, entre as quais o Scorpene. A Marinha ficaria satisfeita se obtivesse qualquer um dos dois", disse o almirante.Enquanto trabalha no desenvolvimento de um submarino nuclear próprio, o Brasil, segundo Moura Neto, ainda levaria oito anos e gastaria cerca de 600 milhões de dólares para concluir a construção de um reator atômico. Depois disso, o País teria de se concentrar na construção do casco para esse submarino.

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