Com um pé no PMDB, Kassab critica DEM e defende fidelidade partidária

Para interlocutores, prefeito tenta legitimar mudança mostrando que eventual saída 'seria em função das posturas do partido'

André Mascarenhas, do estadão.com.br,

29 de novembro de 2010 | 18h45

SÃO PAULO - Em meio às especulações sobre uma possível saída do DEM para ingressar no PMDB, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, criticou nesta segunda-feira, 29, os rumos trilhados pelo seu atual partido e disse que o País precisa de uma "reforma política" que viabilize uma "fidelidade partidária pra valer". Embora contraditória, quando levado em conta o desejo do prefeito de mudar de legenda, a argumentação dá pistas de qual deve ser a estratégia de Kassab caso o DEM ou o Ministério Público tentem cassar seu mandato. O desembarque, por essa lógica, seria consequência de decisões tomadas pelos próprios dirigentes da sigla.

 

"Hoje você tem uma proliferação de siglas que dificultam que os próprios partidos tenham identidades e propostas nítidas, que os diferenciem entre si", afirmou o prefeito, ao explicar as declarações. "O Brasil precisa de partidos fortes, com propostas claras. E não vejo o DEM nesse rumo", criticou Kassab, que de acordo com interlocutores, já estaria de malas prontas rumo ao PMDB. O prefeitou acrescentou ainda que "o último grande equívoco" em relação à reforma política foi a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de "liquidar com a cláusula de barreira". A medida abriu espaço para a proliferação de partidos sem representatividade, que na prática funcionam como siglas de aluguel.

 

Caso deixe o DEM, Kassab pode perder o mandato por quebra de fidelidade partidária. Segundo um colaborador do prefeito, ao criticar os rumos do DEM e, ao mesmo tempo, defender a "fidelidade partidária pra valer", Kassab procura mostrar que uma "eventual mudança de sigla seria em função das posturas do partido". Ainda de acordo com essa fonte, o prefeito está sendo coerente com o que sempre defendeu em relação à fidelidade partidária, mas "se o partido não cumpre com o que se propõe, o filiado tem o direito de sair".

 

Kassab fez as declarações após participar de reunião do Conselho Político e Social da Associação Comercial de São Paulo, coordenado pelo presidente de honra do DEM, Jorge Bornhausen. Kassab e Bornhausen dividiram a mesa com o vice-governador eleito de São Paulo, Afif Domingos, e o senador e membro da executiva nacional do DEM Marco Maciel (PE).

 

Revitalização. O encontro desta segunda acontece faltando pouco mais de uma semana para a reunião da executiva nacional do DEM que definirá se o partido antecipará ou não suas eleições internas. Kassab e aliados defendem a necessidade de "revitalizar" o partido, o que implicaria na retirada do deputado Rodrigo Maia (RJ) da presidência - manobra que, se bem-sucedida, daria ao prefeito maior controle sobre a sigla. Para setores ligados a Maia, ao defender a tese de "revitalização", Kassab procura um motivo para que sua saída não seja traumática a ponto de resultar numa perda de mandato.

 

Nesta segunda, Kassab voltou a negar que esteja de saída do partido. "O que existe é um trabalho de fortalecimento da sigla. Eu tive um posicionamento muito claro e público, e procurei pelo meu sempre presidente Jorge Bornhausen, do DEM, para manifestar minha preocupação com os rumos do partido", disse o prefeito. Ainda segundo ele, a sigla tem "alguns meses" para retomar a "condição de um partido com densidade, com dimensão". Questionado sobre a refundação do DEM em 2007, quando deixou de chamar PFL e abriu espaço na executiva nacional para novas lideranças, Kassab foi direto: "Os resultados não são positivos. E se os resultados não são positivos, vale a pena fazer uma avaliação."

 

Executiva. Membros da executiva nacional que participaram do encontro desta segunda alimentam a esperança de que Kassab continue na legenda, caso o partido decida em reunião da executiva nacional no próximo dia 8 por renovar seus dirigentes antes de setembro de 2011. A data marca o fim do prazo para as filiações partidárias com vistas às eleições municipais de 2012. No calendário original, o DEM só escolheria sua nova executiva nacional em janeiro de 2012, o que impediria uma reacomodação de forças antes do prazo limite para as eleições municipais. Para aliados do prefeito, no entanto, a hipótese de Kassab continuar no DEM é remota.

 

Um dos cotados para presidir o partido no caso de uma antecipação da eleição interna, o senador Marco Maciel evita críticas frontais, mas admite a necessidade de mudanças. "Após realizarmos eleições presidenciais e para os governos estaduais, agora é hora de pensar nas eleições municipais de 2012. A gente tem que começar a se preparar para isso revelando novos quadros", ponderou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.