Com requintes de crueldade

O ano político costuma começar só depois do Carnaval, mas até isso mudou: 2015 começou seco, quente e antes da hora em Brasília, com a presidente Dilma Rousseff sambando no Planalto, o PT desafinando no Congresso e os dois derrapando na avenida.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2015 | 02h03

A sequência de derrotas do Planalto e do PT é impressionante pela quantidade e pela rapidez. Dilma e seu partido não conseguem passar um único dia sem levar uma bordoada, seja pelos índices da economia, seja pelo desastre agora literal da Petrobrás, seja pela dinâmica do Congresso.

Só até aqui e só no Congresso: a eleição do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência da Câmara, as assinaturas para uma nova CPI da Petrobrás, a aprovação do Orçamento Impositivo, o PT excluído tanto da Mesa Diretora da Câmara quanto do comando da estratégica Comissão da Reforma Política.

A caminho da Bahia, onde vai passar o Carnaval e ouvir os orixás do marketing, Dilma deve estar pensando que é mais fácil dormir com inclementes atabaques e tamborins do que com um barulho desses. Mas não é só. A guerra do Congresso do PMDB contra o Planalto de Dilma e de sua ala do PT tem requintes de crueldade.

Sabe o Orçamento Impositivo? Pois é. Incluiu os deputados e senadores recém-eleitos, o que onera as emendas parlamentares em mais R$ 2,4 bilhões. Uma cereja salgada e ardida para as contas já desandadas do governo Dilma. E quem jogou lá a novidade foi um senador "aliado", o ex-líder do governo Romero Jucá - que apoiou ostensivamente o tucano Aécio Neves em 2014.

E o PMDB precisava mesmo eleger o deputado Leonardo Picciani (RJ) líder do partido na Câmara? Ele é filho do cacique carioca Jorge Picciani, comandante da tropa anti-Dilma e pró-Aécio Neves na campanha presidencial do Rio. Não foi mera demonstração de independência em relação ao Planalto, foi uma demonstração de força, uma provocação.

E mais: precisava ter aprovado o "convite" para os 39 ministros de Dilma irem ao Congresso, um a cada semana, para ajoelhar e rezar? O Executivo vai passar o ano de joelhos diante do Legislativo. E nem pode reclamar, porque a artilharia está engatilhada do outro lado da Praça dos Três Poderes. Qualquer coisa, será detonada.

Por falar nisso, já está armada para depois da Quarta-Feira de Cinzas a nova derrota do Planalto - e muito particularmente do ministro da Fazenda, Joaquim Levy: com mais de 600 emendas, a votação do projeto para acabar com velhas mamatas trabalhistas e previdenciárias e tentar melhorar um pouquinho as contas públicas vai virar uma carnificina.

O horizonte político, portanto, está cristalino. Dilma e o PT não terão vida fácil. E quem comanda a oposição não é o PSDB, não é o DEM, não é o PPS. É o PMDB, que arrastou os tucanos de roldão para a incômoda posição de coadjuvantes, de oposicionistas de segunda linha que aplaudem e agradecem os ataques do PMDB ao PT hoje, mas podem virar alvo dos estilhaços amanhã. Em 2018, por exemplo.

Enquanto o vice-presidente Michel Temer se preserva no aconchego do lar, o PMDB de Eduardo Cunha está na ofensiva contra Planalto/PT e não dá chance ao PSDB de Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra nas movimentações do Congresso, nas atenções do Planalto, nas derrotas impostas a Dilma, nos sustos no PT e, particularmente, nos espaços de mídia.

Dilma erra uma atrás da outra, o ex-presidente Lula está indócil, o PT perde todas no Congresso, a Petrobrás explode, mas quem aparece nas TVs, nos rádios, nos jornais e nas revistas não é o líder da oposição, o PSDB, e sim do PMDB - que, oficialmente, é governo.

Haverá mil e uma versões para o encontro de ontem entre Dilma e Lula em São Paulo, com muitas orelhas ardendo, mas de uma coisa ninguém duvide: Eduardo Cunha foi o centro das atenções.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.