Waldemir Barreto/Agência Senado
Waldemir Barreto/Agência Senado

Com prisão de ex-diretor, CPI aumenta pressão sobre o governo; leia análise

Ação representa um marco nos trabalhos da comissão; desde sua instalação em abril, a CPI tem provocado estrago poderoso na imagem política de Jair Bolsonaro

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2021 | 19h27

A voz de prisão dada pelo presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz (PSD-AM), para o ex-diretor de logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias representa um marco nos trabalhos da comissão. Com o gesto, Aziz e o G7 mandaram pelo menos dois recados bem claros. 

O primeiro: acabou a paciência com depoimentos repletos de inconsistências e contradições. E o segundo, mais importante: não pretendem recuar das investigações sobre as irregularidades e as suspeitas de fraudes nas negociações para a compra de vacinas contra o coronavírus. É esse recado que vai diretamente para o Palácio do Planalto e para a tropa de choque governista, que tem buscado enfraquecer os trabalhos da CPI. 

Desde sua instalação em abril, a CPI tem provocado estrago poderoso na imagem política de Jair Bolsonaro. Ao contrário da interrompida CPMI das Fake News, essa comissão foi criada para investigar a responsabilidade do governo na tragédia das milhares de mortes provocadas pela pandemia do coronavírus. A suspeita inicial de que os efeitos da pandemia foram multiplicados e agravados pelo comportamento negacionista do presidente e seus auxiliares acabou acrescida da percepção que o escândalo era maior ainda e envolvia também indícios de corrupção.

O avanço dessas investigações colocou a CPI no centro das atenções da opinião pública, o que aumentou ainda mais o desgaste do presidente e do governo. E isso criou um obstáculo a mais no caminho de Bolsonaro para a tentativa de reeleição em 2022. Se antes, o presidente tinha pela frente o desafio de explicar ao eleitorado porque demorou a comprar vacinas, com a CPI passou a ter de defender também seu governo da suspeita de corrupção.

O movimento feito por Omar Aziz já vinha sendo ensaiado há algumas sessões da CPI. Para o PM Luiz Dominguetti, outro enrolado na compra e venda de vacinas, o senador tinha avisado que "chapéu de otário é marreta". E o tom arrogante do depoimento de Roberto Dias e seu suposto falso testemunho ajudaram a precipitar o movimento que a cúpula da comissão já pretendia fazer para avisar ao governo que as investigações não seriam freadas e que depoimentos manipulados não seriam aceitos. Deu no que deu.

Não se trata apenas de política de oposição a Bolsonaro, como seus aliados alegam. A pandemia já vitimou mais de meio milhão de pessoas e os integrantes da CPI entenderam a dimensão disso. O próprio Aziz já teve um irmão morto pela covid-19. 

Integrante da comissão, o senador Humberto Costa (PT-PE) classificou a voz de prisão como uma espécie de "freada de arrumação". É mais do que isso. É uma imposição de limites nessa queda de braço com o governo. 

A sessão desta quinta-feira, 8, deverá ser marcada por mais bate-bocas entre os dois grupos da CPI. Mas os recados foram dados. Os próximos depoentes já sabem o que os espera, se repetirem o comportamento de Roberto Dias. E o governo vai precisar encontrar uma nova maneira de se defender dentro da CPI, se quiser evitar um prejuízo político ainda maior .

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