Com pé enfaixado, Lula recorre à cadeira de rodas na Nigéria

Sempre preocupado em demonstrar força e resistência, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi obrigado na tarde desta quarta-feira, 29, pelo seu médico a usar cadeira de rodas em Abuja, capital da Nigéria. Ao chegar mancando do pé direito pela manhã ao hotel onde acontece a Cúpula África - América do Sul, ele tinha dispensado muletas e sorrido para as câmeras como se estivesse tudo bem. Foi difícil, no entanto, disfarçar o incômodo e a dor com o tornozelo direito torcido na noite de segunda-feira, 27, ao descer do carro na Granja do Torto. Mesmo com o pé inchado, Lula usava sapatos.Mais tarde, nos encontros reservados com presidentes africanos, numa sala do hotel em que está hospedado, Lula passou a sentir mais dor, segundo assessores. O presidente tirou o sapato do pé direito e colocou uma faixa de pano no tornozelo. No intervalo dos encontros, ele foi levado ao banheiro numa cadeira de rodas por Cléber de Araújo Leal Ferreira, um dos médicos que o acompanham. Ferreira é ortopedista.Para desconforto do presidente, conhecido pela sua mania de auto-suficiência, o corredor de acesso ao banheiro estava repleto de cinegrafistas e fotógrafos. Desta vez na cadeira de rodas, Lula estava com a fisionomia fechada. Assessores informaram apenas que o presidente torceu o tornozelo na residência da Granja do Torto, em Brasília, sem dar detalhes.Com o tornozelo machucado, Lula não compareceu ao jantar oferecido na noite desta quarta pelo presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo, aos chefes de Estado que participam da cúpula. Antes de se isolar na suíte do hotel, Lula se encontrou com os presidentes de Togo, Fauré Gnassignbe, de Gana, John Kufuor, de Moçambique, Joaquim Chissano, e da Argélia, Abdelaziz Bouteflika.Por razões desconhecidas, o encontro de Lula com o ditador da Líbia, Muammar Kadafi, previsto para esta quarta deve ocorrer somente na quinta. O ministro brasileiro de Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que Kadafi preferiu um café da manhã com Lula para ter mais tempo de conversa.No poder desde 1969, Kadafi chama a atenção pela sua segurança ostensiva. Só na Nigéria ele conta com o trabalho de 200 homens. A segurança dele causou problema na chegada a Abuja. Autoridades nigerianas não queriam aceitar que os seguranças líbios entrassem no país armados. Depois de muita negociação, os agentes puderam desembarcar.FantasiaO ministro Celso Amorim, que acompanhou os encontros de Lula em Abuja, classificou de "mito" e "fantasia desgovernada" versões de que o segundo governo priorizará as negociações comerciais com os Estados Unidos e a União Européia. "A prioridade continua sendo a América do Sul e a África", afirmou o chanceler. "Não há razão nenhuma para reorientação da política externa", acrescentou.Amorim ressaltou que o governo brasileiro tem "enorme" interesse em negociar com países desenvolvidos. Na entrevista, ele disse que o Brasil não perdeu mercado nos Estados Unidos, por exemplo, para países que fizeram acordos de livre comércio, como o Peru e a Colômbia. "Só perdemos para a China em alguns setores", disse. No ano passado, o Brasil teve um comércio total de US$ 12 bilhões com países africanos, sendo US$ 7 bilhões em importação. O petróleo nigeriano responde por quase toda a importação.O ministro ainda alfinetou a política externa do governo Fernando Henrique Cardoso. Ele observou que o ex-presidente esteve em três países da África. Lula, por sua vez, viajou para 18 países do continente. "As críticas (à política externa de Lula) são curiosas, pois está todo mundo ganhando dinheiro", disse Celso Amorim. "Aliás, as exportações para os Estados Unidos também aumentaram."Relações Sul-SulNo contexto das chamadas relações Sul-Sul, chefes de Estado sul-americanos e africanos devem discutir pela primeira vez a integração entre os dois continentes. O presidente boliviano, Evo Morales, que não havia previsto viajar à capital nigeriana, anunciou que participará do encontro. Por outro lado, a presidente chilena, Michele Bachelet, anunciou que não estará presente na cúpula.Desde que assumiu a Presidência, em 2003, esta é a sexta viagem de Lula à África. Com a ênfase que a política externa brasileira tem dado aos países em desenvolvimento, o intercâmbio comercial com os países africanos cresceu de US$ 5 bilhões em 2002 para US$ 12 bilhões no ano passado.Em 2005, o Brasil importou US$ 7 bilhões em produtos africanos (US$ 5,5 bilhões somente em petróleo da Nigéria) e exportou à região US$ 5 bilhões.Mas esse número ainda é considerado pouco significativo em relação ao total do comércio exterior brasileiro. Neste ano, até novembro, as importações brasileiras somaram US$ 82,7 bilhões, e as exportações, US$ 123,1 bilhões.Este texto foi alterado às 20h21 para acréscimo de informação

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