WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

‘Com ou sem Lula, a esquerda terá de se repensar’, diz Haddad

Cotado para substituir o ex-presidente Lula caso se torne inelegível, ex-prefeito de São Paulo defende nome de líder petista nas urnas

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2018 | 05h00

O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, coordenador-geral do programa de governo do PT para a eleição e um dos nomes cotados para substituir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não gosta nem de falar da possibilidade da candidatura do petista ser barrada pela Justiça. Independentemente do futuro de Lula, Haddad diz acreditar que a esquerda precisa se repensar. 

+++PT teme encolher se Lula for barrado na eleição

Em entrevista ao Estado, o ex-prefeito afirma que o PT não trabalha com a hipótese de Lula ficar inelegível por considerá-lo inocente. Mas disse que os adversários do petista têm chances reais de bater Lula nas urnas. Para ele, seja quem for o eleito, no dia seguinte à posse todos os segmentos políticos, até mesmo a esquerda, vão ter de iniciar um processo de rearranjo.

+++ANÁLISE: Campo petista ainda não tem alternativas

O discurso de partidarização do Judiciário não é uma tentativa do PT de tapar o sol com a peneira e desviar de um assunto que ainda não enfrentou: os casos de corrupção nas gestões petistas?

Todos os partidos, cada um a seu tempo e a seu modo, vão ter de enfrentar isso. O PSDB também vai ter de responder. É um problema, repito, do sistema político. A eleição é um momento nobre para fazer este balanço porque ali o candidato tem o seu tempo de TV assegurado para levar às últimas consequências seu raciocínio.

Não é uma visão utópica, ingênua, achar que durante o processo eleitoral, quando o interesse maior é o voto, alguém queira dizer a verdade? Em 2014, por exemplo, a campanha do PT falou a verdade?

Reputo a campanha de 2014 uma das piores, se não a pior do período democrático. Ali estavam os ingredientes todos da crise que foi retroalimentada pelas forças políticas sem exceção e que culminou com uma crise econômica potencializada que nos colocou nessa situação da qual precisamos sair. A campanha de 2014 foi muito ruim. O pós-eleição não melhorou, talvez tenha até piorado a situação, e o comportamento das forças políticas em geral foi o pior possível.

Qual o impacto que o julgamento vai ter no processo eleitoral?

Temos de ter a expectativa de que o Lula possa efetivamente ser absolvido em razão da fragilidade da sentença. Ela não se sustenta. Vou um pouco além dos juristas que têm se manifestado a favor do Lula e dizem que não há prova no processo. Na minha opinião, não há nem crime.

O fato de Lula e Marisa terem conversado com a OAS sobre as reformas não é um indício?

Só seria crime se ele tivesse recebido o apartamento sem pagar a diferença entre o que ele tinha declarado no Imposto de Renda e o valor do triplex reformado. Então não há nem o que apurar. 

Quais são as consequências de uma eventual prisão de Lula?

Vai frustrar uma parcela significativa da população que considera legítimo o direito de Lula disputar a Presidência. E eu entendo que os adversários do PT têm uma chance de ganhar a eleição legitimamente. Uma chance real. Não é porque perderam quatro eleições que não podem ganhar a próxima. É a tentativa de ganhar por W.O. 

Qual o futuro do PT sem Lula?

O lulismo vai sobreviver ao Lula pela força da sua liderança. São 40 anos de Lula. Essa marca ele deixou.

Há quem diga que a candidatura de Lula sirva apenas para atrasar a reconstrução da esquerda.

Acredito que, qualquer que seja o resultado eleitoral, em 2019 começa um novo jogo. As medidas eleitorais que já foram tomadas vão começar a surtir efeitos. Os partidos vão ter de se mexer. Não faz sentido ter cinco partidos de esquerda, 15 de centro, 12 de direita. Não tem razoabilidade. As forças políticas vão ser obrigadas a se mexer, a esquerda também vai ter de se repensar. Com Lula ou sem.

A revogação de medidas do governo Temer vai estar no programa de governo?

Existem aspectos de mudanças legislativas que foram feitas e vão exigir revisão. Não para voltar à situação anterior, mas para pensar outro tipo de relacionamento entre capital e trabalho. 

Falta debate na esquerda sobre alternativas além da CLT?

Isso não falo de agora. É óbvio que a esquerda tem de ter compromisso com o trabalho assalariado formal, que é uma conquista da classe trabalhadora. Mas é evidente que o trabalho assalariado formal não emancipa, ele é ainda trabalho subordinado. Se souber aproveitar a modernidade a favor de formas emancipatórias, pode encontrar formas inovadoras que podem representar mais do que o trabalho assalariado. 

A favor do trabalhador?

Do nosso ponto de vista, sempre. É curioso notar que o trabalho assalariado formal acaba sendo fetichizado como se fosse o último estágio de desenvolvimento das forças produtivas. E sabemos que não é. A esquerda libertária tem de buscar formas de superar o trabalho assalariado. 

Se Lula for eleito deve fazer uma reforma na Previdência?

Falar a favor ou contra a reforma da Previdência não é a melhor maneira de lidar com o assunto. A melhor maneira é perguntar qual é a sua proposta para a reforma, à luz do envelhecimento da população e de uma série de fenômenos além da nossa vontade, dar sustentabilidade ao regime? A pergunta é sobre quem vão recair os reajustes? Este tem de ser um debate permanente porque a sociedade muda permanentemente. 

Existe diálogo da equipe de programa de governo com o mercado, com os empresários?

Eu, pessoalmente, estou dialogando. Participei de um encontro do JP Morgan em São Paulo, de um encontro do Movimento Brasil Competitivo do (Jorge) Gerdau, fui a Nova York me reunir com fundos de investimento no Brasil porque é uma forma de me apropriar daquilo que está sendo discutido nestes ambientes. Acho que há interesse mútuo de discutir o País. Lula nunca fechou as portas para quem quisesse buscar interlocução.

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