Imagem João Bosco Rabello
Colunista
João Bosco Rabello
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Com o pé na porta

A maratona do ex-presidente Lula nos últimos dias, ao tempo em que indica claramente sua intenção de candidatar-se em 2018, expõe a indigência da coordenação política do governo, incapaz de atuar com eficiência mínima para o reequilíbrio das relações com o Congresso Nacional.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2015 | 02h01

Lula em campo significa a extrema-unção da articulação do PT no Planalto. Ele cumpre roteiro claro de aprovar o ajuste fiscal para evitar o pior para Dilma. Mas o PMDB não aceita assumir o ônus das medidas, enquanto o PT as contesta publicamente.

A manifestação do líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), confirma a acusação do PMDB. Diz ele que as críticas do partido ao ajuste fiscal são apenas para "marcar posição com o eleitor".

Quando for a hora de votar para valer, acrescenta, ninguém faltará ao governo. É o mesmo princípio que orientou a campanha da reeleição de Dilma: dizer uma coisa para a plateia e, conquistado o objetivo eleitoral, agir em sentido contrário. Só que agora o âmbito é o Congresso, onde no jargão político, "o mais bobo ali voa".

Lula é o que resta de confiabilidade no PT - não para efeito público, mas no contexto das negociações com os demais partidos da base aliada. O que o torna uma espécie de primeiro-ministro no cenário político. Opera para si próprio, mas precisa reconstruir as pontes com os partidos aliados, principalmente o PMDB, para uma candidatura do partido à sucessão de Dilma.

De preferência com ele, Lula. Nas conversas em Brasília com as reais lideranças influentes no Congresso, condicionou sua candidatura - e o sucesso de qualquer outra governista - ao êxito do plano de ajuste do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Mas o próprio Lula foi atingido pelo desgaste do PT e sua ação em favor de Dilma Rousseff reconhece que é dele a responsabilidade pela sua eleição e também pelos resultados de seu governo. Não só para o público interno, mas para os eleitores que apostaram na sua afilhada pela segunda vez e já mostram arrependimento.

Sua incursão ostensiva em terreno da coordenação política, com críticas ao trabalho do ministro Aloizio Mercadante, - em quem vê não só insuficiência para o posto, mas também um aspirante à presidência da República -, faz parte da cruzada a que se dispôs, que tem como efeito colateral a exposição dos erros da equipe palaciana até aqui.

Nesse contexto, o coordenador político Mercadante perde espaço para aquele de quem Dilma precisa mais - e que entrou em cena com o pé na porta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.