Com Lula em caravana no Nordeste, Centrão mostra que aliança com Bolsonaro fica só no ‘quadradinho’

PP de Ciro Nogueira e Republicanos procuram ex-presidente para acordos regionais

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 16h01

Caro leitor,

Enquanto em Brasília se discute crise entre os Poderes e até ameaças à democracia, no  Nordeste o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem fechado acordos para sua candidatura ao Palácio do Planalto com aliados do governo federal. Em sua primeira caravana pela região  desde que voltou à cena política, Lula costura arranjos regionais com partidos que subiram ao altar com o presidente Jair Bolsonaro. Na prática, o Centrão está com Bolsonaro nas “quatro linhas” da Câmara, mas não tem fidelidade a ele fora do quadradinho, como a capital do País é conhecida. 

As traições começam a se revelar justamente no Nordeste. Principal partido do Centrão, o Progressistas (PP) do presidente da Câmara, Arthur Lira (AL), e do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, já rachou. Hoje no núcleo duro do Planalto, Ciro sempre foi considerado um hábil articulador político. Esteve com o PT num passado não muito distante, apoiou a candidatura de Fernando Haddad à Presidência em 2018, embora o PP tivesse lançado a senadora Ana Amélia como vice na chapa de Geraldo Alckmin (PSDB), e agora é definido por Bolsonaro como “a alma do governo”. 

Poucos observaram, no entanto, que, em seu discurso de posse, Ciro mesclou o slogan de Bolsonaro – “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” – com “Viva o povo brasileiro!”, romance de João Ubaldo Ribeiro. O livro explora justamente o “embaralhamento” de posições em uma sociedade como a nossa. 

Líder nas pesquisas de intenção de voto, Lula diz agora achar difícil que Ciro tolere esse casamento de papel passado com Bolsonaro por muito tempo. Pré-candidato ao governo do Piauí, o ministro da Casa Civil tem bons motivos para deixar o Planalto em  abril de 2022 – prazo fixado pela lei para que ocupantes de funções públicas com pretensões eleitorais entreguem seus cargos –, mas o fato é que outros expoentes do PP e do Centrão, como os deputados Dudu da Fonte (PE) e André Fufuca (MA), hoje presidente do partido, já apoiam Lula.

Dudu da Fonte é ligado a Ciro Nogueira, a exemplo de Fufuca, que assumiu o comando do PP enquanto o amigo está no ministério. Interlocutor assíduo do ex-presidente, Dudu esteve com ele em Brasília e agora no Recife. Quer concorrer ao Senado, assim como os deputados Silvio Costa Filho (PE), integrante do Republicanos – legenda do Centrão associada à Igreja Universal – e André de Paula (PSD). Todos esses partidos são aliados do governador de Pernambuco, Paulo Câmara, que é do PSB e está com Lula.

Em um arranjo com o PT, o governador pode se lançar a uma cadeira ao Senado. Caso o ex-prefeito do Recife e atual secretário de Desenvolvimento Econômico, Geraldo Júlio (PSB), não dispute o Palácio das Princesas em 2022, há uma negociação em curso para que o senador Humberto Costa (PT) seja candidato ao governo de Pernambuco em dobradinha com o PSB e partidos do Centrão.

“O PP não tem centralismo no qual o Ciro diz ‘não’”, afirmou Lula em Teresina. “E o Centrão não é um partido político. Quando chegar a campanha de 2022, cada partido (do bloco) irá pensar como é que está sua tribo no seu Estado. Eu estou cansado de ver candidatos a presidente da República serem rifados”, emendou o petista, que tem recebido políticos do PP de vários Estados até mesmo em seu escritório político, em São Paulo. 

Na caravana pelo Nordeste, que nesta quinta-feira, 19, está no Maranhão e ainda vai percorrer o Ceará, o Rio Grande do Norte e a Bahia até a próxima semana, Lula aproveita para desenhar o mapa político que pode sustentar sua candidatura em 2022. 

Na Bahia, por exemplo, o vice-governador João Leão também é do PP e se movimenta para a continuidade da união com os petistas. A prioridade do PT é eleger uma bancada robusta de deputados federais e construir uma frente de apoio a Lula, mesmo que seja preciso abrir mão de candidatos próprios aos governos.

Sempre atento às movimentações de seu principal adversário, Bolsonaro também intensificou as viagens pelo Nordeste, que ainda é reduto eleitoral do PT. Nos bastidores, o marqueteiro João Santana, hoje com Ciro Gomes (PDT), tem dito ser quase impossível que um candidato em primeiro lugar nas pesquisas a um ano e dois meses das eleições, como Lula, mantenha essa posição no ranking até outubro de 2022, quando haverá o primeiro turno da disputa. 

Santana foi o homem que ajudou a eleger o então presidente ao segundo mandato e assinou as duas campanhas de  Dilma Rousseff ao Planalto. Condenado por lavagem de dinheiro na Lava Jato, o publicitário chegou a ser preso, mas retornou em novo estilo e hoje tenta moldar a imagem de Ciro Gomes – muito associada ao temperamento explosivo –, tanto que, em vários vídeos, o ex-governador do Ceará agora aparece cantando. Em junho, por exemplo, o pedetista gravou um áudio dirigindo e soltando a voz em “Rose Garden”, de Lynn Anderson, ao lado da mulher Giselle.

O Nordeste onde os dois Ciros – o Gomes e o Nogueira – construíram suas trajetórias políticas é cada vez mais disputado por ser um poderoso celeiro de votos, capaz de definir uma eleição. Nesse jogo, até o governador de São Paulo, João Doria, que vai concorrer a prévia para escolha do candidato do PSDB ao Planalto, tem lembrado que seu pai era baiano. Até agora, no entanto, a terceira via não conseguiu furar a polarização entre Lula e Bolsonaro nem apresentar um discurso, que dirá fisionomia. Mas, como diz André Fufuca, presidente do PP, “muita água vai rolar debaixo da ponte até 2022”. Principalmente no mar do Nordeste. 

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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