Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Com Lula e Bolsonaro, ‘terceira via’ vai ser triturada em 2022, diz Collor

Ex-presidente afirma que ‘polarização já está posta’ após petista se tornar apto a disputar eleições

Entrevista com

Fernando Collor, ex-presidente e senador (PROS-AL)

Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2021 | 15h15

BRASÍLIA – Com a experiência de ter sido aliado do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e hoje próximo a Jair Bolsonaro, o ex-presidente e atual senador Fernando Collor (PROS-AL) avalia não haver espaço para uma “terceira via” nas eleições de 2022. Em entrevista ao Estadão/Broadcast, Collor afirma que qualquer candidatura de centro que tente se contrapor à polarização entre o petista e o atual presidente será “triturada” na disputa.

O senador diz considerar a aliança do governo federal com o grupo de partidos que formam o Centrão como sólida, e garante que ela não deve ser rompida nas eleições, mesmo com o impasse em torno do Orçamento de 2021.

Alvo de um processo de impeachment após uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso, o senador afirma que a CPI da Covid no Senado tem o potencial de deixar Bolsonaro “combalido”, mas não deve resultar na queda do atual chefe do Planalto.

Confira os principais trechos da entrevista.

O sr. se coloca entre os que defendem uma alternativa para a polarização entre Bolsonaro e PT em 2022?

Terceira via existe na literatura. Na prática política, isso não existe. Sobretudo agora, com a possibilidade de elegibilidade do ex-presidente Lula, claramente a polarização já está posta: o PT, com o seu candidato, no caso, o Lula, e o candidato à reeleição, que é o presidente Bolsonaro. Terceira via vai ser moída. Se essas duas forças estiverem se contrapondo em 2022, qualquer candidatura que se imiscua entre eles vai ser triturada. Quem pensar em terceira via é um sonho de uma noite de verão.

O sr. acredita que o Centrão pode ir com o Lula?

Que pergunta (risos). Não. O Centrão já marcou sua posição. Não vejo como o Centrão sair da posição em que ele se encontra. Mas, daqui para a eleição de 2022, é uma eternidade. Muita coisa pode acontecer. Com base no que hoje temos em mão para analisar, o Centrão está perfeitamente afinado com o presidente da República e vem dando demonstrações inequívocas disso.

O Lula sofreu uma injustiça na Lava Jato, como ele alega?

Sem dúvida que sim. O ex-juiz Sérgio Moro foi um crápula no comportamento em relação ao ex-presidente Lula. As conversas vazadas demonstram que o comportamento dele foi de um personagem como esse.

Depois de se aproximar de Lula e de Bolsonaro durante os respectivos governos, o senhor tem lado nessa briga no ano que vem?

Estou hoje apoiando o presidente Jair Bolsonaro para que ele consiga sair dessas dificuldades pelas quais está passando e que possa concluir o mandato para o qual foi eleito em 2018. 

Na semana passada, o senhor falou que não interessa à população neste momento saber quem desviou recursos. Isso significa colocar eventuais erros debaixo do tapete ou a CPI pode atrapalhar o combate à pandemia?

Faltou você citar a palavra oportunidade. A população não está interessada hoje em saber quem desviou isso ou aquilo, mas está interessada na questão da saúde. Esta não é a oportunidade para que a CPI seja realizada. Ela pode ser realizada depois de terminada, se Deus permitir, a pandemia. Nossas forças devem estar todas elas concentradas no combate à covid. Esse é o grande inimigo a ser enfrentado no presente momento. Desvios precisam ser averiguados? Sim. Esta é a oportunidade? Não. Porque isso vai desviar o foco.

O sr. acredita que CPI tem um propósito de atingir Bolsonaro ou até mesmo derrubá-lo do cargo?

A intenção velada é, sem dúvida nenhuma, atingir o presidente da República. No meu entender, essa é a finalidade precípua de quem pediu a instalação de uma CPI para tratar da questão da covid no momento.

Atingir o presidente em que nível, até que ponto e com qual ação?

Atingir é deixá-lo combalido, sem o ânimo necessário que é preciso que o chefe da nação tenha no presente momento para coordenar as ações de combate à pandemia que nos assola. Naturalmente, ele vai ficar dividido nas suas atenções entre as que são devidas obrigatoriamente por todos nós de enfrentar o vírus e a de enfrentar uma CPI que foi criada com essa intenção velada, até o momento, de atingi-lo e que irá, sem dúvida nenhuma, atingi-lo. Isso, no mínimo, o deixará dividido entre sua defesa e a defesa da população, que precisa estar protegida com vacinas, vacinas e mais vacinas para afastar de vez de nós essa pandemia.

O sr. enfrentou uma CPI que culminou no impeachment logo em seguida. Pode acontecer a mesma coisa com Bolsonaro?

No caso da minha, foi uma comissão mista constituída por deputados e senadores. O Senado não tem dentre as suas prerrogativas a de levar adiante um processo de impeachment. Essa é uma prerrogativa da Câmara dos Deputados. Essa CPI do Senado, que tem a intenção velada - e daqui a pouco tempo será desvelada - de atingir o presidente da República, se chegar a um processo de impeachment, terá que passar pela Câmara. Não precisaria dessa CPI. Já tem mais de cem solicitações de impeachment na mesa do presidente da Câmara. Se isso acontecer, será mais um.

Há ambiente político para um processo de impeachment hoje?

Não vejo ambiente político nem popular, que são dois fatores que devem estar conjugados para que um impeachment possa ser levado adiante, salvo melhor juízo.

O então senador Amir Lando encerrou o relatório final da CPI do PC Farias, que investigou seu governo, citando o versículo bíblico usado frequentemente por Bolsonaro 'conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará'. A frase pode se voltar contra o presidente?

Não vou especular sobre isso.

O Senado pode dar respaldo a uma fritura do presidente Bolsonaro na CPI?

O Senado é muito dividido hoje. Não é fácil dizer qual seria a posição do plenário ao analisar um relatório saído da CPI da covid-19.

A investigação de verbas federais pode atingir governadores?

Em tese, sim, porque CPI a gente sabe como começa mas não sabe como termina. Você leu agora há pouco o título que ensejou a CPMI criada contra o PC Farias, que acabou se transformando em uma CPMI contra o meu governo e contra a minha pessoa. Se houve algum desvio de recursos públicos federais enviados para entes federados, quem responde, em última análise, é o governador. Por mais que os governadores não possam ser atingidos de forma legal por essa CPI, ela não deixa de moralmente atacar fortemente os governadores.

A aliança de Bolsonaro com o Centrão é suficiente para mantê-lo no poder até o fim do mandato e tentar a reeleição?

Eu acho que sim. Eu não sou aliado de A ou de B. Eu sou aliado do Brasil e da governabilidade. Sou aliado de que o governo possa ter condições de levar adiante o seu programa de governo de acordo com o que foi consagrado nas urnas. O presidente continua com sua base de sustentação hígida e isso garante que ele não tenha nenhuma preocupação com sua base, a não ser que surjam fatos supervenientes de extrema gravidade.

O impasse no Orçamento ameaça a aliança de Bolsonaro com o Centrão? Sancionar o Orçamento é uma armadilha para ele ser acusado de crime de responsabilidade?

Não acredito nisso. A simples sanção do Orçamento não chama o crime de responsabilidade. Isso tudo vai se chegar a um bom termo, a um bom entendimento, como sempre. Essa questão de Orçamento anualmente é uma briga constante entre aqueles que são a favor de uma austeridade fiscal e aqueles que entendem que o investimento do Estado é fundamental para a recuperação da economia, sobretudo em um momento como este de retração.

O teto de gastos precisa ser revisto?

Eu sou a favor do teto de gastos, mas sou a favor também que o Estado brasileiro precisa envidar todos os esforços para dar assistência à população mais vulnerável que está sofrendo terrivelmente com essa pandemia, passando fome, desempregada, endividada. O Estado deve continuar fazendo a mesma coisa ou até maior do que fez na primeira fase da pandemia.

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