Com inflação, popularidade de Lula pode cair, diz economista

Para Simão Silber, a popularidade do presidente depende da economia, 'do que mexe com a vida das pessoas'

Claudia Ribeiro, do estadao.com.br

30 de junho de 2008 | 18h17

A população vai sentir cada vez mais os efeitos da inflação em alta e isso poderá mexer com a popularidade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esta é a opinião do economista e professor da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Simão Silber. "A experiência mundial é clara. A popularidade de um governo depende da economia, do que mexe com a vida das pessoas. E hoje temos francamente uma situação em que o poder aquisitivo do pobre e da classe média está sendo comida por uma inflação alta. É um problemão que está instalado no País", afirma.   Veja também:Ouça a entrevista  CNI/Ibope: cai aprovação do governo no combate à fome Avaliação positiva do governo fica em 58%, diz CNI/IbopeFórum: O governo Lula tem sido eficiente no combate à inflação?   Ele avalia que o governo foi leniente na adoção de medidas para conter a inflação, principalmente em relação a medidas fiscais. Silber destaca que isso aconteceu porque o governo contou com a alta dos juros e a queda do dólar para o controle da inflação, mas não fez a "lição de casa". Os gastos públicos, segundo ele, continuam crescendo acima da atividade econômica.  Para 2008, "o jogo já acabou", segundo o professor da USP e qualquer medida adotada agora terá efeito apenas em 2009. 1- O senhor concorda com o resultado da pesquisa Ibope? De fato o governo não tem sido eficiente para combater a inflação? Sim, concordo. O governo tem sido, principalmente no campo fiscal, leniente em relação à adoção de medidas para combater a inflação. Até 2 meses atrás o nosso ministro da Fazenda vinha dizendo que a nossa inflação era do feijãozinho, portanto não era importante, e até recentemente este era o discurso do Ministério da Fazenda. Então, de fato, o governo não tomou as medidas e tem deixado o abacaxi para o Banco Central. 2- O senhor quer dizer que o governo tem contado só com a alta dos juros para combater a inflação?O governo conta com duas coisas para combater a inflação: a alta dos juros (que reduz o consumo) e a queda do dólar (que deixa o preço dos produtos importados mais baratos). Há também coisas artificiais, como não reajustar os preços dos combustíveis.  3- Que outras medidas o governo poderia ter adotado para ajudar no combate à inflação?Sem dúvida, é o corte de gastos públicos. Esta é a grande medida que faltou. O governo continua gastando de uma maneira crescente. O gasto do governo em todos os níveis se expande acima do crescimento da economia. Isso aumenta a demanda e pressiona os preços para cima.4- Os alimentos são os vilões da inflação? Já há uma certa contaminação em outros setores, mas a pressão mais forte vem dos alimentos. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os preços no atacado estão girando acima de 33% nos últimos 12 meses e portanto isso ainda vai bater no varejo, ainda vai bater no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor amplo), que é o índice referência para a inflação. Mas sem dúvida está contaminando, é uma inflação alta. Ela mais do que dobrou de tamanho nos últimos dois anos e ela vai para os contratos. Nós estamos em uma outra realidades, e com problemas mais sérios do que nos últimos anos, porque uma parcela da inflação vem de fora por um aumento de produtos básicos. 5 - O governo tem como combater a inflação no curto prazo? Para 2008, o jogo já acabou. Qualquer medida tomada agora só terá efeitos em 2009. Este ano, a inflação deve terminar o ano acima do limite superior da meta (6,5%). Mas mesmo assim precisamos tentar derrubar a inflação de uma maneira mais consistente, mas os resultados virão apenas em 2009. 6- Se a inflação sair de controle, a população vai sentir cada vez mais a alta dos preços. Isso pode bater na popularidade do governo? Eu acredito que sim, alguns sinais já estão aparecendo. O índice de popularidade do governo continua nos 58%, mas quando se pergunta se o governo fez a lição de casa sobre a inflação a avaliação já piorou de uma maneira considerável. A experiência mundial é clara. A popularidade de um governo depende da economia, do que mexe com a vida das pessoas. E hoje temos francamente uma situação em que o poder aquisitivo do pobre e da classe média está sendo comida por uma inflação alta. É um problemão que está instalado no país.

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