Com fisionomia liberal-popular, DEM avança sobre cinco capitais e irrita Bolsonaro

Partido sai da sombra e, após um longo período de declínio, está liderando hoje a corrida em Salvador, Rio, Curitiba, Florianópolis e Macapá

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2020 | 15h38

Caro leitor,

A três dias das eleições municipais, candidatos apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro continuam empacados nas principais capitais, mas um partido de centro-direita avançou algumas casas nesse jogo. Sempre tratado como satélite que orbita em torno dos tucanos, o DEM saiu da sombra e, após um longo período de declínio, está liderando hoje a corrida em Salvador, Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis e Macapá.

A perspectiva de vitória em cinco capitais é um cenário só comparável ao das eleições de 1988, quando o DEM ainda se chamava PFL, o “pefelê” velho de guerra. De lá para cá, o partido entrou numa rota de inferno astral: viveu escândalos e, na tentativa de mudar, perdeu a identidade. Levou um baque que quase o varreu do mapa após o racha provocado pela formação do PSD de Gilberto Kassab, em 2011, e ocupou o inédito lugar de oposição nos governos petistas dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Após o impeachment de Dilma, o DEM voltou ao governo pelas mãos de Michel Temer, do MDB. A ascensão de Rodrigo Maia à presidência da Câmara, em 2016, deu novo protagonismo ao partido, que à época derrotou o Centrão, mas depois se misturou ao bloco. No ano passado, a sigla também elegeu Davi Alcolumbre para o comando do Senado, desbancando o poderio do MDB, que até então só não havia ficado com a presidência daquela Casa de 1997 a 2001, no período de Antonio Carlos Magalhães (do PFL, hoje DEM).  

Embora o DEM ocupe ministérios no governo (Agricultura e Cidadania) e cargos em empresas de orçamento robusto, como a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), a cúpula do partido diz ter independência em relação a Bolsonaro. É justamente com essa credencial que o DEM se movimenta no cenário político e articula uma aliança no espectro ideológico de centro para enfrentar Bolsonaro na disputa presidencial de 2022.

Desde a campanha de 2018, quando Maia e uma ala do partido queriam apoiar a candidatura de Ciro Gomes (PDT) ao Palácio do Planalto, o DEM tenta se reposicionar no jogo com uma fisionomia que alia o liberalismo na economia a uma agenda social. Naquela ocasião, porém, o grupo de Maia foi vencido. Nos bastidores, havia comentários de que não seria possível sustentar internamente uma guinada tão forte porque Ciro descia “quadrado” no DEM. Diante das divergências, a legenda acabou avalizando a candidatura do tucano Geraldo Alckmin, que ficou em quarto lugar e teve o pior desempenho da história do PSDB em confrontos presidenciais.

Agora, no entanto, o DEM tenta construir com antecedência o caminho para furar a polarização entre a esquerda e a extrema-direita, daqui a dois anos, adotando um estilo de contraponto a Bolsonaro. A estratégia tem irritado o presidente, para quem a vida no Planalto é “uma desgraça”, cheia de problemas.

Na prática, as eleições para prefeitos e vereadores são o primeiro passo para o projeto de poder nacional, em 2022.  Com três governadores (Goiás, Mato Grosso e Tocantins), o partido lançou 33.270 concorrentes nessas eleições – número que inclui candidatos a prefeito, vice e vereador.

O apresentador de TV Luciano Huck foi convidado para se filiar ao DEM, mas ainda não definiu seu futuro político. Maia disse à revista Veja, recentemente, que a maioria do DEM, hoje, prefere a candidatura de Huck à do governador João Doria (PSDB) ao Palácio do Planalto, em 2022. 

A declaração provocou um terremoto político, mesmo porque o DEM divide o governo com Doria em São Paulo e tem um acordo alinhavado para apoiar o tucano à sucessão de Bolsonaro. No arranjo que prevê a saída de Doria, o atual vice-governador Rodrigo Garcia (DEM) será candidato ao Palácio dos Bandeirantes, daqui a dois anos, com respaldo do PSDB. Além disso, o PSDB e o DEM são aliados na campanha para a reeleição do prefeito Bruno Covas, em primeiro lugar nas pesquisas. Celso Russomanno (Republicanos), o candidato de Bolsonaro, está em terceiro nesse ranking. No Rio, o PSDB avaliza Eduardo Paes (DEM), favorito na disputa.

A definição da aliança de centro-direita rumo ao Planalto, no entanto, ainda depende do que vai ocorrer no próximo período de Bolsonaro, que entra na segunda metade do mandato a partir de 2021. “Os próximos seis meses do governo Bolsonaro serão decisivos para seu fortalecimento ou enfraquecimento. O centro precisa procurar um caminho, porque tem convergência em relação à economia, mas tem muitas divergências nas outras pautas”, afirmou Maia no último dia 6, em conferência para o Itaú.

Na lista de nomes que têm participado dessas conversas sobre a construção de um novo polo político para fazer frente ao bolsonarismo estão, além de Huck, o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, filiado ao DEM, e o governador do Maranhão, Flávio Dino, hoje no PC do B.

“No dia em que Doria, Huck e Moro forem de centro, eu sou de ultra-esquerda, o que eu nunca fui”, ironizou Ciro na segunda-feira, 9. “Então, vamos ter compostura. O Moro vendeu a toga e é um cara de extrema direita. Ele prendeu um adversário político, tirou esse adversário da eleição e, em seguida, aceitou ser ministro do que ganhou a eleição. (...) O Doria vai terceirizar a Prefeitura de São Paulo para o MDB e o governo do Estado para o DEM. Esse é o plano dele para ser presidente da República. E vocês que se arrebentem”, prosseguiu o ex-ministro da Integração, que teve uma conversa com Lula em setembro, após várias críticas ao PT. “Lavamos a roupa suja para valer”, resumiu.

Apesar das articulações, o presidente do DEM, ACM Neto, se recusa a traçar cenários para 2022. “Não é hora disso. Primeiro é preciso passar pelas eleições municipais”, desconversou Neto, que é prefeito de Salvador. O candidato apoiado por ele na capital baiana é seu vice Bruno Reis, que está em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto.

O pelotão de frente do DEM nas capitais também é composto por Paes (Rio), Rafael Greca (Curitiba), Gean Loureiro (Florianópolis) e Josiel Alcolumbre (Macapá). Na capital do Amapá a eleição foi adiada nesta quinta-feira, 12, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob o argumento de que o apagão está provocando uma onda de violência. Josiel está na frente, mas caiu nove pontos e seus adversários estranharam o fato de o adiamento da disputa – ainda sem data marcada – ocorrer apenas em Macapá. 

Ainda nas fileiras do DEM, Mendonça Filho (Recife), e Neto Evangelista (São Luiz) estão em terceiro lugar na corrida, de acordo com o Ibope, mas tentam a ultrapassagem de última hora para garantir uma vaga no segundo turno.

“Desde 2018, fizemos opção de crescer a partir das bases, em um caminho de baixo para cima. A gente está se reinventando no Brasil todo e vem num processo de crescimento consistente”, disse ACM Neto. “Se vamos ter ou não projeto presidencial próprio é outra história”.

O cientista político Murilo Medeiros observou que, historicamente, o DEM sempre teve desempenho modesto nas capitais, mas agora ganhou musculatura eleitoral. “O partido passou a vocalizar a tese de um liberalismo popular, de centro reformista, que alia responsabilidade fiscal e emancipação social”, avaliou Medeiros. Filiado ao DEM, ele defendeu na UNB a tese “O renascimento do Democratas: da oposição ao centro do poder”, em 2017, e está escrevendo um livro sobre a legenda.

Um escândalo recente de corrupção pode custar a expulsão do senador Chico Rodrigues (RR), flagrado pela Polícia Federal com dinheiro na cueca, dos quadros do DEM. Rodrigues era vice-líder do governo Bolsonaro e teve de entregar o cargo. Nessa temporada, tudo está sendo feito para a “harmonização” facial do antigo PFL.

Para o professor da Fundação Escola de Sociologia e Política Aldo Fornazieri, o DEM deu uma “guinada” para o centro e assumiu o discurso social. “O DEM era caudatário do PSDB, mas se apresentou com fisionomia própria e hoje está ocupando um espaço que era dos tucanos”, afirmou Fornazieri. “Em que pese ter uma agenda liberal do ponto de vista econômico, o partido se posiciona agora mais no centro democrático, e não tanto na direita, como o antigo PFL. Com essa nova roupagem, tende a sair fortalecido destas eleições”, emendou ele.  A conferir no próximo domingo.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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