Com fim do quercismo, Temer remodela PMDB em São Paulo

Vice-presidente dissolve o diretório estadual do partido e cria comissão provisória liderada pelo deputado Baleia Rossi

André Mascarenhas, do Estadão.com.br

28 de janeiro de 2011 | 19h41

SÃO PAULO - O luto pela morte do ex-governador Orestes Quércia durou exatos 34 dias no PMDB de São Paulo. Na última semana, o grupo ligado ao vice-presidente da República, Michel Temer, colocou em prática um plano para comandar o partido no Estado, dissolvendo o diretório estadual controlado até dezembro por Quércia. A manobra contou com o apoio da maioria dos membros do diretório, que aceitaram renunciar com o  objetivo de abrir espaço para a criação de uma comissão provisória, indicada por Temer.

 

O escolhido para liderar o processo será o deputado estadual Baleia Rossi, filho do ministro Wagner Rossi, um dos aliados de primeira hora do vice-presidente no Estado. A comissão, que conta com outros seis integrantes (veja a lista completa abaixo), tem mandato de 90 dias, prorrogáveis. De acordo com Baleia Rossi, a determinação da executiva nacional é de que ele permaneça na presidência provisória até o fim de 2011, e que reestruture o partido para que novas lideranças ingressem na sigla antes do prazo final de filiação para as eleições de 2012, que termina em setembro. A tendência, segundo fontes do partido, é de que Baleia Rossi seja mantido como presidente estadual na eleição interna, marcada para dezembro.

 

Embora Quércia tenha comandado o PMDB com mão de ferro desde a sua fundação, a passagem de bastão praticamente não gerou traumas. Lideranças paulistas ouvidas pelo Estado atribuem ao modus operandi do ex-governador a retração das bancadas, tanto em nível federal como estadual. Segundo dados do TSE, a bancada federal do PMDB-SP tem diminuído pleito a pleito desde 2002, saindo de quatro deputados em 2003 para apenas um em 2011. Na Assembleia Legislativa, o quadro não se alterou nas últimas eleições, mantendo-se em quatro deputados estaduais. Já os prefeitos do partido no Estado foram de 112 eleitos em 2000 para 71 em 2008.

 

Rompimentos de palavra, articulações sem consultas às bases e o alinhamento com PSDB à revelia da decisão nacional de se coligar com PT são alguns dos motivos elencados pelos aliados de Temer para explicar o fracasso do PMDB paulista nas últimas eleições.

 

"O Quércia sustentou o PMDB financeiramente por muito tempo e, por isso, achava-se o dono do partido", descreve um peemedebista que participou das articulações para a dissolução do diretório estadual, e que garante ter sido traído mais de uma vez pelo ex-governador. "Ele não deixava ninguém crescer no partido, e negociava pelas nossas costas."

 

Outros dirigentes apontam a falta de candidaturas para o executivo como fator central para a retração das bancadas. "Quando você tem um candidato ao executivo puxando votos, você ajuda a eleger bancadas de vereadores e deputados", exemplifica o prefeito de Rio Claro, Du Altimari.

 

Na avaliação de outro peemedebista, que pediu para não ser identificado, o padrão de infidelidade partidária simbolizado pelo racha entre os diretórios estadual e nacional em 2010 também foi um entrave para o crescimento das bancadas. Segundo ele, vários diretórios municipais apoiaram candidatos a deputado de outras siglas, transformando o PMDB num partido de aluguel. "Por isso o PMDB cresce em outros estados e continua pequeno em São Paulo", diz.

 

Faxina. A unificação do partido será, inclusive, uma das prioridades da nova comissão provisória. "Para o partido voltar a ser grande em São Paulo, é fundamental que haja respeito à fidelidade partidária", aponta Baleia Rossi. Segundo um peemedebista que falou sob a condição de anonimato, a comissão provisória terá poder para "intervir" e "limpar" os diretórios infieis.

 

Todos concordam, no entanto, que a tendência é de que o partido se fortaleça para as próximas eleições. "Precisamos acreditar no Michel Temer como um vencedor que conduziu o partido nacionalmente e que pode fazer o partido crescer em São Paulo", resume o presidente municipal da sigla em São Paulo, Bebeto Haddad.

 

Os escolhidos de Temer para remodelar O PMDB-SP

link Baleia Rossi  - Presidente. É filho do ministro da Agricultura, Wagner Rossi. Um dos principais aliados de Temer.

link Jorge Caruso - Secretário-executivo. Deputado Estadual. Era o vice-presidente do partido sob a presidência de Quércia.

link Arlon Viana - Tesoureiro. Assessor e braço direito de Temer em Brasília.

link Bebeto Haddad - Membro. Presidente do diretório municipal do PMDB em São Paulo.

link Uebe Rezeck - Membro. Deputado estadual em fim de mandato, não se reelegeu.

link Jarbas Zuri - Membro. Secretário da prefeitura de Santo André e aliado de longa data de Temer.

link Paulo Lima - Membro. Deputado federal em fim de mandato, não se reelegeu.

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