Com Dilma acuada, Carvalho ganha força

Chefe de gabinete derrapa ao exibir intimidade com presidente

Rui Nogueira, O Estadao de S.Paulo

05 de julho de 2008 | 00h00

No bastidor do Palácio do Planalto está em curso uma mudança que vai além da arrumação administrativa. Gilberto Carvalho, o chefe de gabinete da Presidência, ganhou espaço como coordenador das agendas ministeriais da Esplanada e porta-voz das cobranças do presidente.Carvalho assumiu as funções porque na Casa Civil também há mudanças. Acuada pelas crises em seqüência do "dossiê FHC" e do caso Varig, além de cobrada nas funções de "mãe do PAC" e de pré-candidata empurrada para o palco eleitoral de 2010 pelo próprio presidente da República, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, dedica-se cada vez menos à função que fez Lula tirá-la das Minas e Energia, depois da demissão de José Dirceu nos tempos do mensalão.Em junho de 2005, quando Lula colocou Dilma no lugar de José Dirceu, que voltou à Câmara e teve o mandato cassado, a intenção foi fazer da Casa Civil a gerência administrativa do governo. A intenção virou prática efetiva, o que liberou o presidente para fazer o que mais gosta: falar em solenidades públicas, fazer poucas reuniões de agenda administrativa - meio campo que Dilma tocava - e abrir a agenda do Planalto aos "encontros de visibilidade estratégica" com líderes empresariais e sociais.Uma radiografia das agendas do presidente de 2007 mostra que Dilma concentrava os encontros administrativos com os ministros, que só iam a Lula quando era preciso bater o martelo sobre assuntos primordiais e decisivos. Hoje, com Dilma menos voltada para a tarefa, a agenda do presidente está recheada de um varejo de despachos com ministros cuja administração fica a cargo de Carvalho.O sinal de mais poder no controle de acesso a Lula é tão evidente que Carvalho até foi liberado pelo próprio presidente, duas semanas atrás, para dar uma entrevista às páginas amarelas da Veja, revista criticada no Palácio do Planalto por dez em cada dez funcionários íntimos do poder petista, por causa das reportagens investigativas que foram do mensalão aos dólares de Cuba, passando pelo "dossiê FHC", um levantamento com gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no Palácio da Alvorada.EFEITOS COLATERAISA entrevista coroou o poder adicional de Carvalho, mas, entre outros efeitos colaterais, provocou uma irritante contrariedade no presidente. Lula detestou pelo menos três passagens da entrevista e disse isso ao chefe de gabinete e a assessores especiais do primeiro escalão do Planalto. Censurou Carvalho, em especial, por ter dito que o presidente pensa com a cabeça de um "peão do ABC" - expressão usada para mostrar que Lula tem preocupação com as aspirações básicas das pessoas, como "emprego e salário", disse ele à Veja.Para Lula e assessores que não gostaram da entrevista, Carvalho reforçou uma idéia preconceituosa, de que o presidente só pensa o básico, não tem visão geral da complexidade da sociedade atual. Crítica feita também à passagem em que o chefe de gabinete revelou, em tom confidencial, que apesar de Lula "achar importante a preservação (da natureza), entre um cerradinho e a soja, ele é soja". Diante dos indícios de que o desmatamento na Amazônia voltará a crescer neste ano, além da batalha pelo etanol de cana travada com países ricos e ambientalistas, a frase de Carvalho foi lida no Ministério do Meio Ambiente e por organizações não-governamentais (ONGs) como uma espécie de "desmascaramento presidencial".Claramente, Carvalho usou a entrevista para demonstrar intimidade com Lula e distribuir recados à Esplanada dos Ministérios. Falou de uma intimidade que o autoriza a "dar bronca em Lula", com a ressalva de que não faz isso na frente dos demais ministros, e do desconforto do presidente com a argumentação complacente do ministro Guido Mantega (Fazenda) sobre as causas e efeitos da inflação. O presidente, revelou Carvalho, reagiu "de forma ríspida" a Mantega, que dissera que a inflação estava "restrita aos alimentos".Apesar da derrapada na língua, Carvalho divide uma tarefa de coordenação ministerial que antes era de exclusiva competência da Casa Civil. Sem descuidar do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Dilma dedica-se com afinco à tarefa de pré-candidata em 2010 e tem conversado muito com o marqueteiro João Santana.

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