Reprodução/Youtube
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Com críticas a Bolsonaro e apelos por ‘união’, evento virtual do 1.º de Maio mira eleições de 2022

Com mais de três horas de duração, a live teve como principais bandeiras a defesa da democracia, emprego, vacina e auxílio emergencial de R$ 600 até o fim da pandemia

Cássia Miranda, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2021 | 19h07

A pregação pela “união de forças” para “derrotar” o bolsonarismo deu a tônica do evento virtual em celebração ao Dia do Trabalhador, promovido por centrais sindicais, neste sábado, 1. A transmissão ao vivo, com mensagens de líderes políticos da centro-direita à esquerda, também foi usada indiretamente como palanque eleitoral por potenciais nomes na disputa pela Presidência no ano que vem. 

Sob as bandeiras da defesa da democracia, emprego, vacinaauxílio emergencial de R$ 600 até o fim da pandemia e duras críticas ao presidente Jair Bolsonaro, artistas, sindicalistas e adversários políticos — incluindo três ex-presidentes e futuros candidatos em 2022 — participaram da celebração por meio de vídeos transmitidos numa live de mais de 3h de duração. 

Um dos principais nomes da chamada "terceira via", Ciro Gomes (PDT) classificou o contexto deste 1.º de Maio como “o pior momento da história brasileira”. O político cearense foi o primeiro do evento a destoar dos demais ao aparecer na tela com um vídeo com edição profissional, num ensaio para o horário eleitoral das próximas eleições.

“Só sairemos mais rápido (dessa tragédia) se todos nos unirmos na busca das melhores soluções para o Brasil. Não podemos nos enganar, só chegamos ao ponto em que chegamos porque os sucessivos fracassos de modelo econômico, modelo político e práticas morais nos arrastaram para essa tragédia odienta chamada bolsonarismo”, discursou. Numa alfinetada ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silvaque recentemente teve seus direitos políticos restabelecidos, e a possíveis "outsiders" da política dispostos a concorrer em 2022 (como o apresentador Luciano Huck), Ciro afirmou que “só sairemos desse círculo vicioso” se, entre outras coisas, “não nos iludirmos com fogos de palha que rapidamente queimam nossas esperanças.”

Outro nome citado como potencial candidato à Presidência, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), destacou a unidade das centrais sindicais na realização do evento — o segundo neste formato desde o início da pandemia — como um “sinal” de dias melhores: “Manifesto a minha solidariedade e a minha certeza de que esse 1.º de Maio unificado é um importante sinal de esperança, sinal de fé e sinal de dias melhores na nossa Pátria. Parabéns! E firmes, sempre, na luta pela democracia, pelo emprego e pela vacina”.

Candidato derrotado do PSOL à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos defendeu o impeachment do presidente Bolsonaro e disse que “o povo não aguenta sangrar até 2022” e, por isso, precisa “unir forças”. “Assim que for possível, nós vamos encher as ruas do Brasil para poder derrotar, de uma vez por todas, esse governo genocida”. E insistiu: “Esse é um momento em que a gente precisa unir todas as forças progressistas do País para colocar fim a esse pesadelo”.

O deputado Alessandro Molon (PSB) foi na mesma linha e defendeu a união “na luta por vacinas e na luta para livrar o Brasil desse péssimo governo que tanto sofrimento tem trazido para o nosso povo.”

Assim como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o deputado federal Baleia Rossi (MDB-SP), que também é presidente nacional do partido, foi um dos principais políticos não alinhados à esquerda a participar do evento. Derrotado, em janeiro, na eleição para presidir a Câmara, Baleia defendeu a retomada do desenvolvimento no Brasil.“O que importa no pós-pandemia é o País voltar a se desenvolver. Contem comigo na luta por mais empregos, por mais renda e mais justiça social”, afirmou o deputado.

O coro contra o governo Bolsonaro foi engrossado por discursos dos líderes sindicais, os únicos a estarem pessoalmente presentes no evento. “É chegada a hora de dar um basta: é vacina no braço, é comida no prato e fora Bolsonaro. Esta é a nossa hora”, disse o presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Antonio Neto.

Em seu discurso, o deputado Paulinho da Força foi o primeiro a citar a necessidade de união com foco na eleição do ano que vem. O presidente nacional do Solidariedade pregou que partidos de esquerda, centro e “até a direita civilizada” montem “uma grande força” para “se preparar para as eleições de 2022”. “Juntar essas forças para que a gente enfrente o bolsonarismo e ganhar as eleições de 2022”, afirmou o deputado.

Economia, desemprego e auxílio emergencial

Os ex-presidentes petistas Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva se juntaram ao tucano FHC, primeiro dos três a falar, e dedicaram a maior parte de seus discursos a comentar a situação econômica do País.

“É fundamental, hoje, nós pensarmos nos trabalhadores porque há muito desemprego no Brasil. Eu diria que a questão fundamental do nosso País, hoje, é reabrir a economia de modo tal que ela possa permitir que nós tenhamos trabalho e renda para nossas famílias. Depois a educação, que também é fundamental”, apontou. FHC encerrou sua participação desejando um “futuro mais auspicioso e com mais empregos”.

No início de sua fala, Dilma comparou o número de vítimas da covid e desempregados no País entre o último 1.º de Maio e hoje. “O altíssimo desemprego e as infames condições de trabalho — precário e intermitente, legados da reforma trabalhista — aliados ao desleixo do governo no comando da pandemia são responsáveis por produzir os níveis devastadores de fome, miséria e mortes”, afirmou. 

Na parte final de seu discurso, Dilma fez referências indiretas à possível candidatura de Lula à presidência nas eleições de 2022. A petista afirmou que no “reconhecimento da inocência” do ex-presidente, em referência à anulação das condenações do petista e à suspeição do ex-juiz Sérgio Moro, " manifesta a força da esperança” e “abre uma forte e promissora perspectiva para a luta e organização do povo brasileiro”.

Lula, desde o primeiro momento em que apareceu na tela, deu sinais claros de estar em campanha. Diferentemente dos demais participantes do evento — exceto Ciro —, que enviaram vídeos caseiros e sem edição, visualmente, o material do petista lembrava uma peça de horário eleitoral. “Nos últimos anos andamos para trás, a economia brasileira encolheu e é 7% menor em relação a 2014. Já estivemos nas sete maiores economias, mas hoje descemos ladeira a baixo e somos a 12ª”, disse o ex-presidente, que foi o último político a ter o vídeo exibido.

1.º de Maio na pandemia

Esse é o segundo Dia do Trabalhador realizado virtualmente pelas centrais. Até 2018, CUT e Força Sindical fizeram atos separados e com perfis diferentes. Ligada ao Solidariedade, partido do Centrão, a Força sorteou carros, apartamentos e recebeu lideranças governistas no palco, enquanto a CUT, que é próxima ao PT, fez eventos mais modestos e de oposição.

“Parabéns pelo 1.º de Maio! Mas, neste 1.º de Maio, além dos parabéns, não posso deixar de falar da necessidade de vacinas já, urgente. Vacinas para todo cidadão brasileiro. Temos que parar de perder vidas e perder entes queridos por falta de vacina. Também não posso deixar de falar da necessidade de auxílio emergencial de, no mínimo, R$ 600, imediatamente”, cobrou o presidente da Pública Central do Servidor, José Gozze.

A secretária nacional da Mulher da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), “Tieta”, citou as mulheres como a parcela da sociedade que mais foi afetada pela crise econômica e sanitária. “Com a pandemia, essa carga de trabalho (sobre as mulheres) se tornou ainda mais intensa e cansativa com o fechamentos das escolas e o isolamento social. Além disso, as mulheres foram as mais afetadas com o aumento do desemprego, a precarização das condições de trabalho e as perdas de direito em decorrência da pandemia. Com isso, infelizmente, retrocedemos muitos em anos nas desigualdades e na nossa luta por equidade”, destacou.

Apresentado pela cantora Ellen Oléria e pelo ator Paulo Betti, em diversos momentos, evento e seus participantes fizeram referências às mais de 400 mil mortes no País em decorrência da pandemia e pediram pela aceleração da vacinação contra a covid-19.

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