Com crise na economia, Bolsonaro busca passaporte social para chegar a 2022

Presidente se movimenta entre segundo turno, segunda onda e segundo mandato

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 15h04

Caro eleitor,

Com candidatos derrotados nas principais capitais do País na primeira rodada das eleições e piora na avaliação do governo nos grandes centros urbanos, o presidente Jair Bolsonaro está em busca de uma marca social para a segunda metade de seu mandato. Até agora, Bolsonaro não conseguiu pôr de pé o plano para substituir o auxílio emergencial de R$ 300 que termina em dezembro, mas quer de todo jeito um Renda Cidadã para chamar de seu, com o objetivo de alavancar sua candidatura à reeleição, em 2022.

Nas conversas de fim de tarde com apoiadores, no Palácio da Alvorada, o presidente é sempre questionado se haverá prorrogação da ajuda financeira, que já foi de R$ 600. “Pergunta para o vírus”, respondeu ele na última terça-feira, 24, a uma mulher que desejava saber se o auxílio seria mantido. “A gente se prepara para tudo, mas tem que esperar certas coisas acontecerem”. Antes, Bolsonaro já havia se referido a notícias sobre uma possível “segunda onda” da pandemia como “conversinha” e dito que, se houvesse novo confinamento social, a economia quebraria. 

É neste cenário de segundo turno, segunda onda e desespero pelo segundo mandato que Bolsonaro se move. Depois de amargar forte revés ao não conseguir emplacar o candidato do Republicanos, Celso Russomanno, em São Paulo, nem Bruno Engler (PRTB), em Belo Horizonte, o presidente também está prestes a se associar a uma derrota no Rio de Janeiro. A última pesquisa Ibope, divulgada nesta quarta-feira, 25, mostra que o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), apoiado por Bolsonaro, tem 28% das intenções de voto e, se a eleição fosse hoje, perderia para Eduardo Paes (DEM), que está com 53%.

Enquanto isso, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) , e outros dirigentes de partidos de centro e centro-direita constroem uma frente política que pode ser o embrião para a disputa de 2022 ao Palácio do Planalto. A aliança é para a sucessão de Maia, em fevereiro de 2021, mas já reúne siglas que se preparam para enfrentar Bolsonaro daqui a dois anos, como MDB, PSDB, Republicanos, Cidadania, Podemos e PSL, sem contar o próprio DEM. Detalhe: com o provável aval do Supremo Tribunal Federal (STF), Maia ganhará um passaporte para, se quiser, ser candidato ao comando da Câmara pela terceira vez.  

Pressionado pelo presidente a encontrar uma fórmula para lançar um Bolsa Família turbinado, custe o que custar, e, na outra ponta, a mostrar compromisso com reformas para atrair investimentos, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que não se constrói uma sociedade melhor com “fofoca”. Para o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro, o governo manteve o rumo, mesmo no caos.

“Quem estiver sentindo falta de um plano quinquenal dá um pulinho ali na Argentina, ali na Venezuela”, afirmou Guedes, na noite desta quarta-feira, 25, dando uma estocada no presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. “O dia em que a Bolsa estiver caindo 50%, o dólar explodindo, aí vou dizer que falta credibilidade”, emendou o ministro. Campos Neto havia dito, horas antes, que era preciso “conquistar credibilidade” com um plano para mostrar aos investidores que o País está preocupado com “a trajetória da dívida”.

Ex-aliado de Bolsonaro, o senador Major Olímpio, líder do PSL, disse que “todos sabem” da necessidade de prorrogar o auxílio emergencial e viu sinais de nova crise no horizonte. “O governo já está no cheque especial. Vai tirar de onde? O Bolsonaro pressiona Guedes, mas, depois do primeiro turno das eleições, descobriu que também tem de comer muita buchada de bode para se viabilizar em 2022”, provocou Olímpio, que rompeu com o presidente no ano passado. 

Buchada de bode foi uma referência ao Nordeste, região do País que recebeu R$ 62, 2 bilhões – ou 34,7% do total pago pelo governo em todo o País – de auxílio emergencial. O Nordeste era celeiro de votos do PT, mas o quadro mudou e o antigo território vermelho virou alvo de acirrada competição.

Sem conseguir as assinaturas necessárias para tirar do papel o Aliança pelo Brasil, Bolsonaro está à procura de uma legenda para se filiar, após ter saído do PSL na esteira de um ruidoso embate pelo controle da sigla e de seu milionário fundo partidário.

“Depois do primeiro turno dessas disputas municipais, a água passou do umbigo e o mito descobriu que terá de se agarrar a alguma boia para se salvar”, ironizou o líder do PSL, numa referência ao apelido de Bolsonaro. “Mas nós precisamos de um balão para voar, e não de uma âncora para afundar”. A três dias das eleições que indicam caminhos tortuosos até 2022, resta saber quem conseguirá essa façanha.

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Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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