Com crise em alta, Bolsonaro é pressionado a antecipar reforma ministerial

Centrão quer cabeça de Guedes e de Bento Albuquerque, mudanças na estrutura da Economia e troca no Desenvolvimento Regional

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2021 | 15h28

Caro leitor,

Às vésperas das manifestações de 7 de Setembro e diante da acentuada perda de apoio popular, o presidente Jair Bolsonaro tem sido cada vez mais pressionado pelo Centrão a antecipar ao menos uma parte da reforma ministerial prevista para abril de 2022, quando os candidatos de sua equipe terão de deixar os cargos para disputar as eleições, como manda a lei. Até mesmo ministros mais pragmáticos, como o titular da Casa Civil, Ciro Nogueira, já viram que não é possível “tutelar” Bolsonaro, mas pedem carta branca para “fazer política”, como costumam dizer, e segurar as pontas do governo até o ano que vem. 

Com o enfraquecimento do ministro da Economia, Paulo Guedes, e o Palácio do Planalto cercado por uma “tempestade perfeita” – composta por conflitos institucionais, inflação e juros em alta, aumento do preço dos alimentos, do gás de cozinha, da conta de luz, desemprego e pressão pelo impeachment – , o Centrão vê nova janela de oportunidade para dobrar a aposta nas negociações com o governo. No momento em que Bolsonaro promete uma “segunda independência” no 7 de Setembro e insiste em ameaças golpistas, partidos do bloco exigem mais cadeiras no primeiro escalão para contemplar novamente a Câmara dos Deputados, o Senado e alguns setores que lhe são fiéis, como o dos evangélicos e o dos ruralistas.

Ao enfileirar argumentos de que Guedes não tem visão política para manter tantas funções sob sua batuta perto de um ano eleitoral, o Centrão quer a sua cabeça e também a do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, numa quadra em que se agrava a crise hídrica e há risco de apagão no País. A cobrança não é de hoje, mas foi reforçada nos últimos dias.

Principal partido do bloco, o Progressistas conseguiu tirar da Casa Civil o general Luiz Eduardo Ramos, amigo de Bolsonaro, e entregar no mês passado a articulação política do Planalto com o Congresso para Ciro Nogueira, pré-candidato ao governo do Piauí. Até agora, porém, a fritura de Guedes não levou à explosão do Posto Ipiranga de Bolsonaro, embora ele venha perdendo combustível pelo caminho. Na outra ponta, embora Bento Albuquerque, um almirante de esquadra, tenha defendido dar “a real” para a população sobre a necessidade de um duro racionamento de energia, Bolsonaro vetou a proposta, considerada “alarmista”.

Na tentativa de não se desgastar ainda mais na corrida para as eleições de 2022, o presidente tem dourado a pílula e omitido que o País está à beira de um apagão, que, aliás, não é só de energia, mas de planejamento. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) são dois postulantes ao Planalto que têm batido com insistência nessa tecla. “Dois mil e vinte e dois não será uma eleição para bonzinhos”, resumiu o governador de São Paulo, João Doria, que vai disputar prévias no PSDB para escolha do candidato à Presidência, em entrevista ao programa Roda Viva, nesta segunda-feira, 23.

Há, de qualquer forma, um movimento em curso no Congresso para desidratar o Ministério da Economia e, ao mesmo tempo, para substituir Bento por um nome do Senado. A intenção é recriar Planejamento, responsável pelo controle do Orçamento da União, e também Indústria e Comércio Exterior. As duas pastas continuam sob o guarda-chuva do “superministério” de Guedes, que na reforma de julho já perdeu Trabalho e Previdência.

“Não tenho nenhum desapreço pessoal pelo ministro Paulo Guedes, pelo contrário, o respeito e quero bem, mas é impressionante a desconexão dele com a realidade do povo. Desemprego, fome, inflação, juros não o incomodam. O sonho do brasileiro era morar no discurso do ministro”, disse o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL-AM) em postagem nas redes sociais.

Outro alvo da cobiça é o Desenvolvimento Regional. À procura de um partido para se filiar e já com convite do Progressistas, o ministro Rogério Marinho (ex-PSDB) deve concorrer a uma cadeira no Senado ou ao governo do Rio Grande do Norte. Pivô do escândalo do orçamento secreto, revelado pelo Estadão, a pasta ocupada por Marinho é amplamente disputada, assim como o Ministério da Educação, hoje nas mãos de Milton Ribeiro.

Atualmente, 11 dos 23 ministros de Bolsonaro pretendem entrar na briga de 2022. Embora seja pastor, Ribeiro é visto por políticos evangélicos de partidos do Centrão como incapaz para continuar à frente do ministério em um ano tenso como o de 2022. Apesar das insistentes cobranças, o chefe do Executivo ainda não bateu o martelo sobre o novo capítulo da reforma na equipe.

Convencido de que há uma “conspiração” para prender seu filho “02”, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), e impedir o projeto de reeleição, Bolsonaro não se conforma com a atitude do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que rejeitou pedido de impeachment apresentado por ele contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, relator do inquérito das fake news. Nos bastidores, não se cansa de dizer que, não fosse o seu apoio, Pacheco não teria sido eleito para comandar o Senado.

E assim a crise vai se avolumando, com manifestações contra e a favor do governo previstas para 7 de Setembro. “O Brasil Não Te Aguenta Mais”, diz panfleto que começou a ser distribuído nesta quinta-feira, 26, em São Paulo, por centrais sindicais e movimentos populares.

Na capital paulista, o ato a favor de Bolsonaro será na Avenida Paulista; a oposição, por sua vez, quer ocupar o Vale do Anhangabaú. “O grito mudou: liberdade ou morte!”, escreveu o coronel da Polícia Militar Mello Araújo, presidente da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), em defesa de Bolsonaro. Trata-se de uma temporada perigosa, com infiltração de policiais militares da reserva, e alguns também da ativa, em movimentos bolsonaristas. Os riscos à democracia são evidentes. Só não vê quem não quer. 

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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