Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Com Costa calado, oposição e governo aproveitam para trocar críticas

Oposição e situação tentam defender seus lados enquanto ouvem ex-diretor da Petrobrás afirmar insistentemente que 'não tem nada para declarar'

Daiene Cardoso, Ricardo Brito e Ricardo Della Coletta, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2014 | 19h01

Atualizada às 23h

O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa compareceu nesta quarta-feira à CPI mista da estatal no Congresso, em Brasília, mas usou a prerrogativa de permanecer calado. Diante do silêncio, a sessão da comissão que investiga irregularidades na empresa se transformou em palanque para governistas e oposicionistas reforçarem os discursos eleitorais de seus candidatos ao Palácio do Planalto.

Costa ficou na CPI por duas horas e 40 minutos. Não falou para não colocar em risco os termos da delação premiada que negocia desde o fim do mês passado com a Justiça Federal do Paraná. Nesse acordo, ele se comprometeu a ajudar na apuração – apontou pagamentos de dinheiro desviado da Petrobrás a uma série de políticos – em troca de redução da pena. Durante a sessão desta quarta-feira, o ex-diretor da estatal respondeu 17 vezes que iria ficar em silêncio.

Os oposicionistas usaram sua presença para atacar a presidente e candidata à reeleição Dilma Rousseff e comparar o esquema delatado por Costa ao mensalão – discurso semelhante ao que vem sendo usado pelo tucano Aécio Neves na campanha. “Dilma fracassou ao dirigir a Petrobrás e, com isso, demonstrou incapacidade para presidir o Brasil. O que nós queremos é uma mudança de conduta”, afirmou Antonio Imbassahy (BA), líder do PSDB na Câmara.

Os petistas, por sua vez, aproveitaram o silêncio do delator para lembrar que escândalos também ocorreram na época em que o presidente da República era seu adversário Fernando Henrique Cardoso (PSDB) – tema recorrente lançado por Dilma quando questionada sobre denúncias na estatal. “Temos interesse de que os fatos sejam investigados, diferentemente do governo anterior, ao de Lula, que tinha um ‘engavetador-geral’ da República”, disse o deputado petista Afonso Florence.

O deputado Julio Delgado (PSB-MG) protestou contra o fato de Costa ter citado o ex-governador Eduardo Campos, morto em acidente aéreo no mês passado, como um dos beneficiários do suposto esquema de propina. A cúpula do partido que agora tem Marina Silva como cabeça de chapa teme que a menção ao nome de Campos possa afetar a candidatura de sua sucessora. Marina já disse que Campos não está mais vivo para se defender. “Surgiu o nome de alguém que já morreu e que nem direito de se defender tem, não disputa eleições, não disputará eleições”, disse Delgado.

Defesa. O clima partidário e eleitoral foi intenso durante a sessão. O líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), saiu em defesa do partido, o que teve o maior número de citados de suposto envolvimento com o ex-diretor. “Pior do que deixar em aberto nomes de parlamentares que não foram citados é citar, divulgar ou vazar nomes de parlamentares que não têm sequer o direito de defesa porque não sabem do que estão sendo acusados às vésperas de um processo eleitoral”, disse. Cunha e outros caciques da sigla foram citados por Costa, segundo a imprensa, como os presidentes da Câmara, Henrique Alves (RN), e do Senado, Renan Calheiros (AL), e o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão.

Costa chegou ao Senado para o depoimento com fome. Pediu aos policiais algo para comer antes da sessão. A quentinha foi providenciada no restaurante da Casa. O prato do dia era carne com molho de vinho e purê de batata. De entrada, salada.

‘Bandido’. De bigode e sem algemas, o ex-diretor manteve-se sereno enquanto esteve à disposição dos parlamentares. Escoltado por policiais federais e agentes do Senado, Costa não esboçou reação nem quando foi chamado por parlamentares de “bandido”, “covarde”, “chefe da quadrilha que assaltava” a Petrobrás, mentiroso e enganador.

Costa trocou poucas palavras com sua advogada Beatriz Catta Preta, que ficou sentada ao seu lado durante toda a sessão. Bebeu água, tomou café e, com as mãos entrelaçadas, acompanhou atentamente todas as intervenções de deputados e senadores. Foi cumprimentado apenas pelo líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE).

O ex-diretor repetiu 17 vezes o mantra: “Vou me reservar o direito de ficar calado”. Quando houve um bate-boca entre deputados da base e da oposição sobre a conveniência ou não de uma sessão fechada, o ex-diretor comentou algo ao pé do ouvido de sua defensora. Foi uma das poucas vezes que sorriu.

Macacão. Durante a reunião, o líder do PSDB na Câmara mostrou uma foto do ex-diretor na qual ele estava escrevendo algo no macacão de Dilma. “Gostaria de saber o que você escreveu no macacão dela” questionou o tucano. Costa apenas olhou para o parlamentar e o ignorou.

Pouco depois, o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) arrancou risadas do plenário quando disse que, se o ex-diretor não quer falar nem mesmo em sessão reservada, Costa só declinaria o esquema sobre tortura. “Eu não sou adepto da tática de tortura; ao contrário, combato energicamente”, brincou o baiano. Mais uma vez, o ex-diretor somente olhou para o parlamentar.

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