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Com Bolsonaro nos calcanhares, PT moderado quer Lula como 'centro', 'transição' e 'reconstrução'

Se o ex-presidente vai seguir os moderados, ou os seus radicais, ou o seu ressentimento, são outros 500; mas esse é o melhor rumo para a campanha

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2022 | 03h00

A posição do ex-presidente Lula na disputa presidencial já foi bem mais confortável, mas o presidente Jair Bolsonaro vem demonstrando capacidade de reação e isso mexe não só com os nervos, mas com as estratégias do PT. O lado moderado aconselha Lula a usar três carimbos para ampliar seu leque de apoio e escapar da bolha exclusivamente de esquerda.

O primeiro carimbo: ele seria o verdadeiro “candidato de centro”. O segundo: será um “presidente de transição” e não disputará um quarto mandato. O terceiro: sua missão é “reconstruir o País”.

É uma estratégia forte, mirando PSDB, Cidadania, MDB, PSD e a própria Rede. Ou seja, para atrair e segurar votos de centro e centro-esquerda que há em todas essas siglas e evitar uma debandada para Bolsonaro no caso de falência da terceira via.

Esse risco é ainda mais concreto no caso de Sérgio Moro, do Podemos, que mantém acesa a chama da terceira via e tira votos à direita, ou seja, de Bolsonaro. Lula precisa que Moro continue na disputa e demonstre alguma viabilidade eleitoral.

Se é muito improvável os eleitores de Moro migrarem para Lula, o petista precisa evitar que escorram de volta para Bolsonaro. Ele tem a caneta e cargos e não tem o menor prurido em usar tudo isso a seu favor na campanha, inclusive para buscar de volta bolsonaristas arrependidos.

Ao ter Geraldo Alckmin como troféu, Lula abre a porta – e um pretexto – para ampliar sua candidatura até para parcelas da direita. Com a dificuldade de João Doria em deslanchar, o racha no PSDB e a aflição em evitar Bolsonaro, esse é um movimento quase natural.

Falar em “presidente de transição” remete a Itamar Franco, que substituiu Fernando Collor de Mello depois do impeachment, se uniu a Fernando Henrique Cardoso, aos tucanos e aos melhores quadros da economia (ainda hoje, aliás) do País. Um sucesso.

Lula não é Itamar, comandou a Presidência com energia, tem ideias muito firmes sobre as questões nacionais e não entregaria o governo para terceiros, mas a ideia é mostrar que tem capacidade de atrair bons quadros fora do PT, reduzir a ojeriza da oposição e mais: ele faz 77 anos em outubro. Reeleição?

Aí entra a “transição para reconstrução”, com a tragédia Bolsonaro na saúde, ambiente, educação, cultura, economia e na própria política, com um clamor na sociedade, independentemente de esquerda, direita e centro, para refazer o País.

Se Lula vai seguir os moderados, ou os seus radicais, ou o seu ressentimento, são outros 500. Mas esse é o melhor rumo para uma campanha que tem Bolsonaro nos calcanhares e vai ser alvo de intensa pancadaria.

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