Com base sob investigação, Temer vê abalo da 'tranquilidade institucional'

Um dia após deflagrada a Operação Politeia, a cúpula do PMDB e integrantes de outros partidos da base aliada reagiram aos mandados de busca e apreensão nas residências de senadores e deputados e passaram a articular retaliações contra o governo, a quem acusam de estar por trás de uma operação para enfraquecer o Tribunal de Contas da União (TCU) e também o Congresso.

ERICH DECAT, DANIEL CARVALHO, ISADORA PERON / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2015 | 02h01

O ambiente contaminado pela ação da Polícia Federal, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, levou o vice-presidente da República e articulador do Palácio com o Congresso, Michel Temer, a considerar que a operação abala a "tranquilidade institucional" do País. Questionado sobre a ação, ele disse: "Temos que buscar no País uma certa tranquilidade institucional porque essas coisas todas estão, digamos assim, abalando um pouco a natural tranquilidade que sempre permeou a atividade do povo brasileiro".

O TCU e o Congresso deverão julgar nos próximos meses as contas de 2014 da presidente Dilma Rousseff. Se for condenada, poderá ser aberta contra ela uma ação por crime de responsabilidade que, no limite, pode resultar em seu impedimento. Ontem, a avaliação na base era a de que, a persistirem as investidas judiciais contra parlamentares, o contra-ataque virá com a rejeição das contas e consequente abertura do processo de impeachment.

Após reunião com os presidentes do Senado, Renan Calheiros (AL); da Câmara, Eduardo Cunha (RJ); e com ex-presidente da República José Sarney (AP) para anunciar investimento nas redes sociais do partido, Temer também anunciou a ruptura com o PT para as eleições de 2018.

"Estamos abertos a todas as alianças com todos os partidos. Apenas o que está sendo estabelecido é que o PMDB quer ser cabeça de chapa em 2018", afirmou o vice-presidente.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ligou no mesmo dia das buscas da Politeia para o presidente do Senado. Na ocasião, Lula e Renan conversaram sobre os impactos políticos da ação da Polícia Federal.

"O clima de impeachment cresce no Congresso. Chegando na Câmara, o processo inicia", afirmou o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, deputado Arthur Lira (PP-AL), aliado de Cunha. Ambos são citados nas investigações da Lava Jato e também podem ser alvo de futuras operações da PF.

O entendimento na base é de que houve participação do governo na Politeia com o objetivo de implicar os julgadores da conta de Dilma em irregularidades - TCU e Congresso.

As buscas ocorreram nas residências de três senadores - Ciro Nogueira (PP-PI), Fernando Collor (PTB-AL) e Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE)-, além do deputado Eduardo da Fonte (PP-PE); do ex-ministro das Cidades Mário Negromonte; e do ex-deputado João Pizzolatti (PP-SC).

Os agentes federais também realizaram busca e apreensão no escritório do advogado Tiago Cedraz, filho do presidente do TCU, Aroldo Cedraz.

Lista de retaliações. Além de dificuldades para Dilma no julgamento das contas, outras retaliações foram discutidas ontem. Uma das respostas planejadas é a convocação de ministros próximos à presidente.

Ontem foi dado um sinal disso. Após intervenção de petistas, um requerimento de convocação do ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) se transformou em convite na Comissão de Minas e Energia da Câmara. Comissões parlamentares de inquéritos também devem ser instaladas logo após o fim do recesso parlamentar, como a do BNDES e a dos fundos de pensões.

Para atormentar o Planalto, contrário à criação das comissões, articula-se ainda a entrega das relatorias a integrantes da oposição. Projetos que divergem dos interesses do governo também devem avançar, como o que trata da repatriação de recursos não declarados no exterior.

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