Colômbia exporta peixes pescados no Brasil

A Colômbia está se tornando um dos maiores exportadores de peixes da América do Sul, graças ao Brasil. Anualmente, das 600 toneladas de pescados que são retirados de lagos e rios do Alto Solimões, no Amazonas, 400 toneladas vão ilegalmente para aquele país. Sem ajuda do governo brasileiro, ribeirinhos e pescadores da região vendem o quilo do peixe a preços irrisórios, ou em troca de redes e comida. "Os pescadores praticamente entregam o peixe de graça", afirma a prefeita de Santo Antônio do Içá, Inês Baranda Hortência (PL), uma das poucas pessoas que denunciam o fato.Segundo moradores da região, o pescado sai do Alto Solimões a R$ 1,00 o quilo e é vendido na Colômbia a quase US$ 15. "Meu sonho é ter, um dia, dinheiro para financiar a pesca na minha cidade", afirma Inês, que precisa de R$ 150 mil para implantar um programa de ajuda em seu município.Das 600 toneladas de peixe que saem todo ano de Santo Antônio do Içá, 400 toneladas são de peixe liso, como o pintado ou surubim, piraíba e dourado, o preferido pelos exportadores pela facilidade de entrada no mercado europeu e americano. "O peixe de escama é vendido no Brasil, mas o liso vai para Bogotá e de lá para outros países. Muitas vezes este mesmo peixe também é vendido no País como produto importado", afirma a prefeita.O pescado brasileiro vendido na Colômbia é encontrado principalmente nos inúmeros lagos de Santo Antônio do Içá, Maturá, São Paulo de Olivença, Benjamin Constant e Atalaia, pequenas cidades ao longo do Rio Solimões, praticamente na fronteira dos dois países. De lá o peixe chega a Tabatinga e depois Letícia, de onde grandes cargueiros levam toneladas para Bogotá. Depois de industrializado, segue para os Estados Unidos, principalmente.Para se conseguir grande quantidade de pescado a um preço simbólico, os colombianos não precisam muito. Alguns deles financiam redes, motores para barcos, comida e geladeiras para o ribeirinho resfriar o produto. É uma forma de contrato da qual o pescador sai sempre perdendo. "No fim do mês ele sai sempre perdendo. Ou seja, ainda fica devendo aos colombianos", afirma Inês Hortência.Segundo ela, quem dita o preço na região são os exportadores colombianos. O valor nem sempre agrada, mas é o único mercado disponível para os brasileiros daquela região. "Se tivéssemos condições de subsidiar os pescadores, como fazem os colombianos, com certeza poderíamos até mesmo continuar vendendo para eles, mas ditando o preço", explica Inês.DestruiçãoMas o problema não é só esse. A pesca predatória também está acabando com o meio ambiente do Alto Solimões. Os colombianos já estão jogando bombas nos lagos para matar os peixes. E foi a própria prefeita que descobriu a nova forma predatória de pesca. Passeando por um dos lagos, Inês viu barcos colombianos com modernos equipamentos jogando bombas no rio. O motivo era localizar o sulamba, uma espécie que leva seu filhote praticamente grudado ao pescoço. Este tipo de peixe não tem mercado no exterior, mas a cria tem uma procura por ser ornamental. "Elas matam a matriz, colocam o peixinho no oxigênio e vendem a preços altíssimos", conta a prefeita, que se armou para enfrentar os colombianos que, entretanto, preferiram deixar o local. Mas levaram centenas de peixes.O presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) está estudando o assunto e deve se pronunciar esta semana. A Polícia Federal tentou evitar a saída do peixe, mas não teve base legal para impedir. "Por não ser produto que paga imposto, não podemos fazer nada", diz o delegado Mauro Spósito. A última interferência no assunto deu prejuízos à PF. "Tivemos de pagar todo um carregamento apreendido", lembra.

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